ABRE-TE, INEDITISMO

terça-feira, dezembro 15, 2015 5 Comments A+ a-



É nobre da minha parte sempre querer colocar medalhas de honra ao mérito para o acaso. Assim evidencio que nada pode de fato ser planejado por completo sem a intromissão poética do improvável em seu traje de gala. Parece uma descrição dos seus sentidos funcionando juntos num dia comum. Talvez seja mesmo.

Não posso chamar tal ineditismo de algo ordinário, pois praticamente consegue desarmar grande parte de minhas defesas emocionais veteranas. Antevejo alguns dos seus passos mas num segundo momento, você está descalça andando sobre um assoalho de madeira que range o suficiente pra despertar um moribundo, porém, meus ouvidos só conseguem catalogar as batidas de seu órgão cardiovascular. 

Doravante a vida poderia ser escrita com letras de forma num daqueles cartões comemorativos. Nem são desejos de verdade, mas ajudaria a me lembrar de que um dia o orgulho foi inquilino em minha casa. Hoje está nas ruas tentando consertar a vida de alguém que não precisa de nenhum reparo. Claro, meu orgulho sempre adorou entrar na lista de produtos supérfluos.

Em minha defesa, apenas o seu ataque.

Meu contra-ataque?

Te levaria café na cama mas sempre preferi as alturas. E você parece gostar do teto de todos os quartos que nunca adormecemos de verdade.


Ninguém fecha os olhos quando botões e zíperes estão abertos.

Imagem: Milan Carnansky

O TAPETE VOADOR

terça-feira, dezembro 08, 2015 0 Comments A+ a-



Poderia ser um flerte com uma certa imoralidade, mas não era. Não está sendo. Não tem sido. 
Curiosos não costumam ter sete vidas, mas vivem como se tivessem. Culpa do estímulo de alguém que, mesmo com as mãos pequenas, consegue esmagar a confiança dos mais seguros de si.
E não sorri de graça, sem propósito predefinido. Talvez seja apenas pra se certificar da imortalidade de uma curiosidade, plantada até a raiz dar a volta ao mundo e sair do outro lado.

Diante de tanta intensidade, fechar os olhos é uma quebra de leis. Acredite. Qualquer um ficaria abstinente de sono voluntariamente, só pra tentar catalogar os movimentos dessa criatura. 
Imprevisível, como o recheio do seu sanduíche favorito em restaurantes de caráter questionável. Mas o sabor? Vale o risco. Vale saborear.

Uns salivam, outros choram. Você, provocativamente, lubrifica.

Então alguém te morde em pedaços pequenos na tentativa de lhe transformar numa refeição que dure o suficiente pra juntar orgasmos já múltiplos e criar um hecatombe de sensações. 

Era você vestindo desconhecidos com suas músicas de refrão difícil, pois o que vale mesmo é o que se diz nos versos que não rimam. Ali, alguém tenta pegar a sua confusão e fazer algum sentido, mas ninguém consegue ficar consciente diante dos seus passos sobre egos, histórias, relações.

Dizem que o segredo para não se deixar levar pelo encanto de pessoas desconhecidas nas ruas, é varrer toda aquela beleza ocasional para debaixo do tapete.

Mas parece que com você, o tapete voa.

Imagem: SofiV Photos

DEZEMBRO NÃO TRAZ O QUE VOCÊ TEVE O ANO TODO PRA BUSCAR

terça-feira, dezembro 01, 2015 1 Comments A+ a-




Era só dezembro. Não chovia, apesar do tempo e caras fechadas. Talvez mais tarde. De cabeça baixa, imagino as aventuras em caixa alta de um mundo que vive abaixo do nosso campo de visão. Certamente serão mais interessantes que qualquer outra coisa desse planeta tão convencional.
Seriam politizados em causas ganhas? Saberiam lidar com derrotas antes mesmo de colocar a possibilidade de entrar na guerra? Não sei. 
Sequer consegui formar um personagem, são retalhos do que enxergo.
Uma montagem quase sem credibilidade dos olhares que cruzo. Aquele mix do que poderia e deveria ser, mas não é.

Demorei tempo demais pensando e as primeiras gotas já começam a dançar do céu ao chão. Onde estariam aqueles que mudariam as opiniões? Cansados, preguiçosos, com outras obrigações para se preocupar. Daquelas que ninguém julga úteis, mas é tão incrível pensar apenas em si mesmo, né?
Olhar pra dentro sem precisar ver quem rasteja lá fora, carregando rifles que não funcionam. Antes intimidasse. É só pena de alguém que não tem mais nada pra se escorar além de uma arma de fogo.

Mas o bom existe no ruim, e se procurar motivos, talvez encontre mais do que lama. Mas quando a procura não está num site, num aplicativo, numa ferramenta que economize suor, não funciona. Não transforma. Não faz o básico parecer indispensável.
Pois se não conseguimos nos transformar, o entretenimento está aí pra nos humanizar por duas horas inteiras no cinema. Ou temporadas de seriados. Queremos palavras em nossa boca através de legendas.
Pensem por mim e não em mim.

Narizes escorrem mais que lágrimas.
Então é correto dizer que existe mais gripe do que tristeza.

Imagem: Dennis Heck