QUANDO O PRESENTE NÃO É UM PRESENTE

sexta-feira, junho 19, 2015 8 Comments A+ a-



Mesmo odiando o tato, eu sei que você se pega pensando em como seria. Se ficasse mais tempo tomando aquele café amargo, segurando a xícara até que esfriasse a ponto de não ficar mais agradavelmente tomável. Recusando a voz que não mora mais em seu coração mas segue entrando em seus fones de ouvido. 
Ruim quando beijos certos não te deixam escolha, a língua fica no lugar do cérebro e só o dia seguinte é capaz de restaurar as configurações originais.

Mas aí a Joss Stone aparece no Spotify antes do despertador enquanto você dança se desviando das roupas no chão do seu quarto e eu nem consigo fingir que estou dormindo.



Atrasados como os novos amores, lembro que você entrou sem que ninguém lhe oferecesse uma bebida, ou uma informação sobre algum endereço que você nem sabia que procurava. Certamente você não colocaria ‘intrometida’ em seu currículo, creio que arranjaria qualquer coisa que discordasse do eufemisto. Provavelmente algo como ‘desbravadora de personalidades sociais ocasionais’. Isso, claro. É levemente mais bonito quando soa complexo e misterioso.



E agora, sob os poucos presentes que ganhou, um novo relacionamento ainda não está tão conectado quanto a Netflix. Olha lá você trocando contatos físicos por seriados. Às vezes você só queria que as pessoas tivessem legendas sobre o que estão pensando.



O que fazer quando a cartomante decidiu jogar poker com as cartas do seu futuro?

Ficar no passado.


Imagem: teetsy

BOROGODÓ

terça-feira, junho 09, 2015 2 Comments A+ a-



Todo mundo quer ter. Nem todo mundo sabe da existência. Nem todo mundo assume que não têm. Todo mundo já conheceu alguém que tem.

É, o tal do borogodó.



Um conjunto de fatores, de sensações, de histórias? Uma potencialização incomum de um único atributo? Ok, uma pausa no tempo. Ou então, uma aceleração de pulsação.

Que tal, um encanto sem causa justificável? Melhor, não? 

Enfim, quem têm, tem.



Seria a voz? Eu gosto de vozes. 
Cordas vocais às vezes tocam mais que orquestras inteiras. Se as melhores coisas acontecem quando fechamos os olhos, o som precisa ser épico.


Por esse ponto de vista, a audição é um identificador de borogodós. O ouvido é o caminho mais rápido até o coração? 
Ah, e vocês pensando que era o estômago. 
Ao invés de abrir o livro de receitas era só abrir a boca. E usar a língua.



Mas aí tem o pessoal que se liga no perfume. As narinas são analistas de qualidade, o Inmetro do cheiro. Então, ainda de olhos fechados, o ponto em questão se concentra na fragrância. Uma dança de notas que vão direto às melhores lembranças de nossas vidas. Golpe quase irresistível? Ponto pro olfato.

Então os exércitos do toque pedem passagem. Será o tato a maior representação de borogodó dos sentidos? A maneira de reger o arrepiar dos pelos? A pegada que separa relações casuais de experiências que não terminam mesmo após se recolherem as roupas do chão?

Talvez a graça seja a imprecisão, a deliciosa indefinição. Não saber de onde vem, mas saber exatamente pra onde se vai. Pois uma vez com o borogodó, o passado é uma lembrança apagada diariamente com novas aventuras.