QUASE NINGUÉM É INTERESSANTE DE VERDADE

segunda-feira, março 31, 2014 10 Comments A+ a-



O que faz de uma pessoa interessante? O que transforma seu papo num discurso bem orquestrado a ponto de nos privarmos da fala por tempo indeterminado? Qual o segredo daqueles que aparecem com o benefício da novidade e fazem seu encanto próprio atravessar gerações?



Dizem que a intimidade acaba com esse estereótipo mas quando alguém é mesmo interessante, o tempo não consegue diminuir seus poderes. Não é um estereótipo. Se depois de alguns meses você não consegue mais encontrar razões para admirar a pessoa que conheceu e julgou interessante, desculpe. Ela não é interessante. É apenas empolgação inicial com alguém que não desenvolveu seu pleno potencial. É uma farsa de personalidade, uma faísca de convencimento que não teve capacidade de se transformar em incêndio. Um blefe.



Ser interessante normalmente ziguezagueia entre clichês e rótulos.

Não é simpatia nem beleza. É convicção de representar sempre a si mesmo de forma triunfal. É vestir a roupa da própria pele e mostrar a todos que vale a pena parar o que quer que seja que estejam fazendo pra ver, ouvir e nunca esquecer.



Afinal, pessoas comuns podem ser apaixonantes, pessoas incríveis podem ser inacreditáveis mas pessoas interessantes são inesquecíveis. Não confunda as sentenças.

Imagem: Nan Lawson

MÚSICOS DE VERDADE SÃO ESPANTALHOS

terça-feira, março 11, 2014 4 Comments A+ a-



Obcecado por seduzir ouvidos, venerava a audição como o mais indispensável dos cinco sentidos. Apesar de estar no stage, seus acordes colocavam o público num pedestal ainda mais alto que seu próprio show.
 Numa sociedade que chamava qualquer barulho de música ao vivo, ele sobrevivia oferecendo verdadeiras trilha sonoras.



Carregava o mundo e os instrumentos nas costas. Decepções se transformavam em ideias para canções futuras enquanto procurava esconder o passado em refrões de tom alto. Ali poderia gritar na tentativa de se libertar do que a vida desafinou. Ali poderia mudar o ritmo das escolhas erradas para conseguir acompanhar a indecisão do tempo.



Sabia que se perdesse o equilíbrio, cairia no esquecimento. Com tanto assédio de outros estilos e a banalização da arte em produções de áudio, era cada vez mais difícil fazer sua melodia audível. Sucesso era sinônimo de barzinhos com estrutura duvidosa repletos de pseudo-músicos frustrados tentando se convencer que um palco de cinco centímetros de altura era a mesma coisa que o Madison Square Garden.



Amante do original, escutar covers semitonados o descolossoavam. Tanto convencimento com um raso reconhecimento era nocivo ao trabalho que oferecia. Todo o conceito que empregava estava sucumbindo à uma reunião desinspirada de cidadãos semi-bêbados oferecendo quase que gratuitamente o genocídio de gravações clássicas.



Som alto, nível baixo, conceito rasteiro. Era uma escavação com alvará liberado. Não existia poço, mas o fundo tinha se transformado num objetivo desvelado naquele segmento.



Arrastou sua vida pra dentro dos cases pois temia a erradicação da boa música. As composições de uma existência pareciam encolhidas num canto sob uma luz tão fraca quanto as canções de hoje. 

Outrora convincente e performático, sua aparência lembrava a de um espantalho musical pois ao tentar proteger o que restou das boas músicas passou a afugentar os que não sabiam ouvir.

Talvez assim, só reste o que realmente valha a pena ter de fã.


Imagem: Abby