A MELHOR DAS SEGUNDAS INTENÇÕES

quinta-feira, outubro 31, 2013 25 Comments A+ a-



Um leve cataclisma de ansiedade se evidenciará sempre que a história decidir citar nossos nomes numa mesma linha. Procurados por uma eternidade de duração, somos acusados sem chance de defesa por crimes hediondos como assassinato de padrões, assalto de valores e formação de quadrilha em festas juninas.

Baseados na libido das relações adolescentes, nada pode ser mais irresistível do que nossa altiva presença. Se sozinhos nós já nos embriagávamos com litros e litros de inveja destilada, juntos a boemia alcançava estágios dignos de um arranha-céu.



Sua postura intocável, perfeitamente simétrica, era a obsessão de todos. Não existiam exceções quando sua silhueta se desenhava. Pequenas ruas viravam grandes passarelas, caminhadas eram desfiles de gala, refeições eram jantares, conversas eram discursos, cumprimentos se transformavam em verdadeiras reverências. Nenhum cenário lhe era desfavorável, nada soava destoante. Toda e qualquer coisa relacionada à sua pessoa nunca era menos do que épico. Um espetáculo impecável da introdução ao encerramento.



Eu, egocêntrico e confiante de que minha volúpia genética galgaria mais esse degrau da conquista, apenas observava os dardos galantes atirados na direção daquele hecatombe feminino. Enchi meu copo de inocência e esperei sua comitiva passar perto das minhas propriedades.

Apesar de ter todas as habilidades comprovadas na área de entretenimento, a convicção dos seus passos era digna de admiração. 



Num instante, abandonei minha coleção de bons momentos para aceitar unicamente os inesquecíveis. Me ofereci para carregar o seu mundo nas costas enquanto sua música favorita começava a tocar.

Sua vida, cheia de refrões difíceis de se cantar, estava em cada sílaba que eu pronunciava. Não que minha sabedoria musical fosse a de um maestro aposentado, mas meus ouvidos reconheciam notas agradáveis e decoravam a melodia logo na primeira vez que a canção fosse executada. Ou seja, em poucos acordes, a música estava apenas em minhas cordas vocais e você, em um lugar que ficava entre o meu queixo e o meu nariz.



Desde então dividimos suspiros e outros doces, sonhos e outras sobremesas.


Nós sempre tivemos a melhor das segundas intenções.

Imagem: Jerry Staton


VENCIDOS PELO CONFORTO

segunda-feira, outubro 14, 2013 14 Comments A+ a-



Um epitáfio ilegível decora o leito de algumas emoções antigas. Sobre o ombro da vida, apenas o supérfluo. Contando os dias sem fim, a noção do tempo se equipara a qualquer virgindade: perdida.

A realidade de plástico soube escalar a moral valendo-se de artifícios como a falácia e a presunção - termos conhecidos na prática já que a teoria queimou os próprios livros. Cinzas, então, voam abaixo de um céu da mesma cor.

Sem graça, o nó da gravata se confunde com o da garganta. Todos os métodos foram abandonados por instintos automáticos e repetitivos. Não existem lugares confortáveis para a consciência repousar, logo, a estafa sempre está na primeira fila.

Greves intelectuais se transformaram em verdadeiras profissões. Como questionar sem o conhecimento do argumento? Embasados sobre o nada, qualquer coisa soa como verdade maciça. É a preguiça ganhando os mais altos salários na indústria das sensações.

O exército do conforto só é formado de altas patentes. E quando todos se sentem generais, os inimigos são tratados como os únicos soldados.

Lamento que a única reação da nossa geração seja alérgica.


A ESCRAVIDÃO DE UMA PROMESSA

sexta-feira, outubro 04, 2013 26 Comments A+ a-



Andamos secretamente sobre a beleza da incerteza. Trocamos olhares e celulares, um verdadeiro escambo de conquista. E ainda assim, mesmo não estando devidamente vestidos para um tribunal, as pessoas continuam encantadas com a ideia de nos julgar deliberadamente.
Uma obsessão descabida pelo maldito martelo.
É o complexo de Thor em versão jurídica, um hábito tão corriqueiro quanto escovar os dentes com um novo creme dental que é estrelado por alguma nova celebridade no comercial da televisão ou nos cinco segundos preciosos que antecedem algum vídeo no YouTube.

Entendo o ceticismo dos pobres críticos de cinema da vida. A frustração decorrente da ausência de ambição os transformou em seres limitados emocionalmente. São os dinossauros da sociedade que sobreviveram ao meteoro de libertinagem mas carregam sequelas de tamanha atrocidade ao pudor.

Felizmente, a indiferença também faz parte de nossa relação.
Despejamos entretenimento mesmo que o mundo tenha aberto um milhão de guarda-chuvas abaixo de nós. Poucos enxergam os raios de sol que se escondem em cada gota de nossa tempestade.
Não fazemos poesia com o cotidiano mas gostamos de encarar a trivialidade como pequenos fragmentos de um dia especial.

Talvez o pessimismo seja uma coleção de desastres em miniatura que ignoramos nos horários comerciais, afinal, a maioria nunca questiona a legitimidade dos alarmes falsos. É a automatização da rotina trabalhando a favor do descontentamento existencial.

Não fabricamos romances com limite de páginas pois as melhores histórias nunca passaram por nenhum processo de edição. Pra ser de verdade, tem que ser integral.

Faça um favor: nunca boicote um compromisso.
O pior tipo de caloteiro é o que deve favores.
E desses são os piores credores.

Imagem: Ellen Weinstein