QUANDO O AMOR (QUE VOCÊ ACHA QUE É) DA SUA VIDA É O DE OUTRA PESSOA

sexta-feira, maio 24, 2013 14 Comments A+ a-



O breve dura menos. Talvez por isso devesse ser uma exclusividade das pessoas que detém habilidades mais perceptivas. Elas saberiam aproveitar adequadamente o melhor desse momento. Conheceriam os atalhos de uma lembrança e não esgotariam os espaços da memória com reminiscências dispensáveis. 

Assim é a fotografia. Breve.

As recordações criadas pelas imagens soam como ferramentas de uma verdadeira máquina do tempo. Ainda que não se consiga manipular as situações originais, é possível reviver atmosferas e, com um pouco mais de observação, enxergar ações que só seriam conhecidas futuramente.

Nem o mais fervoroso dos pessimistas conseguiria ser infeliz em seus seis primeiros meses de relacionamento sério com qualquer suposto affair de classificação alta entre “mulher em potencial” e “garota dos sonhos”.

(Que os rótulos geram expectativas estratosféricas, não é novidade).

A resistência a tantas coisas em comum - ao diálogo inicial onde tudo é relevante e a cada sílaba dela que se transforma numa sinfonia impecável, digna das grandes obras de Mozart ou Beethoven em seus dias de inspiração exacerbada - torna-se humanamente impossível.

Então ponderamos sobre seus adjetivos com a pretensão de que eles poderiam fazer parte do sobrenome. É a imersão ao universo do encantamento pleno.
As fotos gargalham e contagiam os olhos de quem ousa segurar toda a nossa história nas mãos. Somos bonitos de perto e de longe, para a inveja de Monet.
É a química lícita. Não se vende mas muitos passam a vida toda tentando comprar.

Seria cinematográfico se a rotina não decidisse se convidar para jantar. Uma vez à mesa, todas as refeições são dela. Ela começa a fazer poses em nossos clicks e planeja, sem nenhuma etiqueta, transformar nossa banda em duas carreiras solos.

Com o pacote de admiração no fim, a solteirice parece solúvel em qualquer quantidade de lágrimas desperdiçadas. As descobertas aparentemente voltam e o jogo reinicia do ponto onde você ganhou. Mas, se ganhou, por que voltar a jogar?

As fotografias se multiplicam e não estamos mais nelas. Outros se apropriaram de seu lugar na composição. São mais sinceros e consistentes, estudaram criteriosamente o que seu ex-troféu valorizava. A redoma se formou em volta do seu antigo presente e nenhuma trilha sonora pode te proporcionar um eufemismo confortável ao seu revés emocional.

Palmas de pé para o espetáculo do arrependimento. Cada segundo capturado não pode mais ser compartilhado em tempos atuais. De personagem, você passou a um simples espectador da vida de uma pessoa brilhante que decidiu um dia desfilar nas avenidas do seu quarto.

Mas aí vem aquele som peculiar que representa a epifania e comprova sua inocente incompetência de proporcionar a sensação natural que ela experimenta hoje. Você não poderia fazer parte daquela celebração coerente e bem arranjada.
Em sua melhor forma, vocês só conseguiriam ser um soneto. Eles eram Os Lusíadas.
Vocês eram anotações em guardanapos de bares sem cardápio. Eles eram literaturas, best-sellers.

Encontrar e compreender a real intenção de nossos sentimentos nem sempre é um exercício simples de se fazer. Muitas vezes as marcas são fotografias de dias onde a felicidade era tão presente que não podia ser notada. Fazia parte da gravura, da escultura, da moldura. Mas fazer parte não é o bastante. É preciso mais verbos no infinitivo pra eternizar uma relação.

IDEIA & TEMPO: ANTIGOS INIMIGOS

quinta-feira, maio 02, 2013 12 Comments A+ a-



Ideias parecem um arsenal bélico (isso seria pleonasmo?) que explodem na cabeça sem ao menos um comunicado do Ministério da Defesa. Aquele sentimento de abraçar o mundo tomou conta de todos os territórios da minha razão e desafiou o tempo que não tenho para um duelo épico.

Como se planejar na confusão organizada que se instalou como um software pirata em nossos tempos?
Como colocar em prática os esboços aparentemente geniais sem crucificar horas vitais de sono profundo e fabricação de conhecimento indireto?
Como começar algo novo mesmo sem terminar nenhum dos outros projetos igualmente importantes que seguem por todo o sempre em andamento?
Como se dedicar de maneira considerável a tantos espasmos criativos sem ser seduzido por informações externas que borbulham num caldeirão de uma feiticeira poderosa, a qual chamamos de vida?

Não possuo mais a habilidade de controlar profissionalmente os meus estímulos. No estágio atual de funcionamento, apenas despejo coisas novas, dos mais variados sabores, num bolo de conhecimento que nunca sequer conseguiu chegar ao forno.
Como degustar uma fatia quente de sabedoria quando o garçom cultural não para de servir teorias com o mesmo teor saboroso e obrigatoriamente irresistível?

É, eu sei que mastigar ajuda a digestão. O problema é que eu não consigo parar de comer.

Imagem: ButtercupLiffy