A MUDANÇA É UM ESTADO INTERMITENTE

quinta-feira, novembro 21, 2013 18 Comments A+ a-



O gelo não veio com defeito, logo, não existe necessidade de quebrá-lo. É apenas o destino colocando placas de PARE a cada quilômetro que você avança. A gravidade nos segura mas o desejo de liberdade costuma construir espaçonaves capazes de fazer nossos pés escreverem cartas de despedida ao chão.



Nenhum dos cinco sentidos vale quando não se sabe em que sentido se vai. Afinal, os acomodados nunca se mudam, só com ordem de despejo. Todos querem ser milionários, mas quantos saem em busca do primeiro centavo? 
Talvez ninguém ainda tenha se dado conta de que está escrevendo a própria história com a caneta errada.



Não adianta respirar aliviado com a ajuda de aparelhos. O mundo gira mais devagar aos que salivam por mudança. O look do dia é assassinar o cotidiano e erradicar a rotina. Colecionar pessoas novas num álbum que tem sangue nas veias.



Quando a gente enjoa da paisagem, até um cenário de guerra fica pitoresco.



Não estabeleça endereço, apenas monte acampamento. O sol nasce em todos os lugares.  


Imagem: Sérgio Moreira


A MELHOR DAS SEGUNDAS INTENÇÕES

quinta-feira, outubro 31, 2013 25 Comments A+ a-



Um leve cataclisma de ansiedade se evidenciará sempre que a história decidir citar nossos nomes numa mesma linha. Procurados por uma eternidade de duração, somos acusados sem chance de defesa por crimes hediondos como assassinato de padrões, assalto de valores e formação de quadrilha em festas juninas.

Baseados na libido das relações adolescentes, nada pode ser mais irresistível do que nossa altiva presença. Se sozinhos nós já nos embriagávamos com litros e litros de inveja destilada, juntos a boemia alcançava estágios dignos de um arranha-céu.



Sua postura intocável, perfeitamente simétrica, era a obsessão de todos. Não existiam exceções quando sua silhueta se desenhava. Pequenas ruas viravam grandes passarelas, caminhadas eram desfiles de gala, refeições eram jantares, conversas eram discursos, cumprimentos se transformavam em verdadeiras reverências. Nenhum cenário lhe era desfavorável, nada soava destoante. Toda e qualquer coisa relacionada à sua pessoa nunca era menos do que épico. Um espetáculo impecável da introdução ao encerramento.



Eu, egocêntrico e confiante de que minha volúpia genética galgaria mais esse degrau da conquista, apenas observava os dardos galantes atirados na direção daquele hecatombe feminino. Enchi meu copo de inocência e esperei sua comitiva passar perto das minhas propriedades.

Apesar de ter todas as habilidades comprovadas na área de entretenimento, a convicção dos seus passos era digna de admiração. 



Num instante, abandonei minha coleção de bons momentos para aceitar unicamente os inesquecíveis. Me ofereci para carregar o seu mundo nas costas enquanto sua música favorita começava a tocar.

Sua vida, cheia de refrões difíceis de se cantar, estava em cada sílaba que eu pronunciava. Não que minha sabedoria musical fosse a de um maestro aposentado, mas meus ouvidos reconheciam notas agradáveis e decoravam a melodia logo na primeira vez que a canção fosse executada. Ou seja, em poucos acordes, a música estava apenas em minhas cordas vocais e você, em um lugar que ficava entre o meu queixo e o meu nariz.



Desde então dividimos suspiros e outros doces, sonhos e outras sobremesas.


Nós sempre tivemos a melhor das segundas intenções.

Imagem: Jerry Staton


VENCIDOS PELO CONFORTO

segunda-feira, outubro 14, 2013 14 Comments A+ a-



Um epitáfio ilegível decora o leito de algumas emoções antigas. Sobre o ombro da vida, apenas o supérfluo. Contando os dias sem fim, a noção do tempo se equipara a qualquer virgindade: perdida.

A realidade de plástico soube escalar a moral valendo-se de artifícios como a falácia e a presunção - termos conhecidos na prática já que a teoria queimou os próprios livros. Cinzas, então, voam abaixo de um céu da mesma cor.

Sem graça, o nó da gravata se confunde com o da garganta. Todos os métodos foram abandonados por instintos automáticos e repetitivos. Não existem lugares confortáveis para a consciência repousar, logo, a estafa sempre está na primeira fila.

Greves intelectuais se transformaram em verdadeiras profissões. Como questionar sem o conhecimento do argumento? Embasados sobre o nada, qualquer coisa soa como verdade maciça. É a preguiça ganhando os mais altos salários na indústria das sensações.

O exército do conforto só é formado de altas patentes. E quando todos se sentem generais, os inimigos são tratados como os únicos soldados.

Lamento que a única reação da nossa geração seja alérgica.


A ESCRAVIDÃO DE UMA PROMESSA

sexta-feira, outubro 04, 2013 26 Comments A+ a-



Andamos secretamente sobre a beleza da incerteza. Trocamos olhares e celulares, um verdadeiro escambo de conquista. E ainda assim, mesmo não estando devidamente vestidos para um tribunal, as pessoas continuam encantadas com a ideia de nos julgar deliberadamente.
Uma obsessão descabida pelo maldito martelo.
É o complexo de Thor em versão jurídica, um hábito tão corriqueiro quanto escovar os dentes com um novo creme dental que é estrelado por alguma nova celebridade no comercial da televisão ou nos cinco segundos preciosos que antecedem algum vídeo no YouTube.

Entendo o ceticismo dos pobres críticos de cinema da vida. A frustração decorrente da ausência de ambição os transformou em seres limitados emocionalmente. São os dinossauros da sociedade que sobreviveram ao meteoro de libertinagem mas carregam sequelas de tamanha atrocidade ao pudor.

Felizmente, a indiferença também faz parte de nossa relação.
Despejamos entretenimento mesmo que o mundo tenha aberto um milhão de guarda-chuvas abaixo de nós. Poucos enxergam os raios de sol que se escondem em cada gota de nossa tempestade.
Não fazemos poesia com o cotidiano mas gostamos de encarar a trivialidade como pequenos fragmentos de um dia especial.

Talvez o pessimismo seja uma coleção de desastres em miniatura que ignoramos nos horários comerciais, afinal, a maioria nunca questiona a legitimidade dos alarmes falsos. É a automatização da rotina trabalhando a favor do descontentamento existencial.

Não fabricamos romances com limite de páginas pois as melhores histórias nunca passaram por nenhum processo de edição. Pra ser de verdade, tem que ser integral.

Faça um favor: nunca boicote um compromisso.
O pior tipo de caloteiro é o que deve favores.
E desses são os piores credores.

Imagem: Ellen Weinstein

AMOR VERDADEIRO SÓ EM CATIVEIRO

terça-feira, setembro 24, 2013 19 Comments A+ a-



Quando nada convence por completo e as pessoas são objetos
As virtudes viram artigos raros e os sentimentos, presentes caros
Numa sociedade emocional pobre, nenhum coração é nobre
E o comum soa enjoativo, descartável por qualquer mínimo motivo

A realidade do romance ofegante não faz das relações elegantes
É a superficialidade de agora descolorindo o mundo lá fora
Quem desconhece a surpresa nunca vai saber com certeza
O quão bela é a arquitetura daqueles que acreditam na própria loucura

Entre múltiplos orgasmos e diálogos obrigatoriamente rasos
Quem aumenta o som nunca escolhe um artista bom
O popular não encanta mesmo que a entrada seja franca
E ninguém acha inadmissível o clichê ser a única opção disponível

Aos mais espertos, um mundo de caminhos abertos
De janelas fechadas, mas com lembranças inesperadas
Ontem as emoções eram sinceras como as primeiras primaveras
Hoje o amor verdadeiro é criado apenas em cativeiro


Imagem: Wolbinho

AVIÕES DE PAPEL

quarta-feira, agosto 21, 2013 24 Comments A+ a-



Dizem que filosofias baratas não precisam de desconto. Se tal afirmação fosse verdadeira, isso faria de mim alguém tão desafortunado a ponto de não conseguir comprar uma mísera ideologia oferecida quase de graça. Mas talvez minha fortuna tenha ficado em algum dos seus cofres secretos, com senhas que mudam a cada quinze minutos.

Lá estão guardadas as suas verdades contando mentiras com a boca cheia. Sua paciência se esvaziando como as garrafas de vinho de um encontro ruim. Eu extraí o sal de sua única lágrima rebelde mostrando que o seu exército de postura tinha graves falhas no caráter.

Mas eu não sirvo pra servir.

Minha distração derramou mais volúpia do que amor pelo seu discurso. Sua reputação nunca ficou tão excitada com a possibilidade de erradicar o tédio por completo. Eu sabia como instigar a sua curiosidade disfarçada de pesquisa científica. E ainda que a dignidade não fosse um acessório comum em suas roupas, eu lhe vesti com uma moda pretensiosamente atemporal.

Ninguém notava a sensível falta de nobreza que existia em todas as viagens que fizemos com aviõezinhos de papel. Seu medo de altura era maior que o medo de ser feliz. Por outro lado, sua caligrafia austera e seus verbetes incomuns viviam confundindo a nossa comunicação. Lembro-me que convoquei uma orquestra de músicos amadores na tentativa de reproduzir os sons da sua voz em partituras que eu conseguisse ler. Era uma nota transcrever suas notas.

A total aversão à qualquer falta de criatividade ou reprodução preguiçosa de obras ou emoções externas fazia de você o verdadeiro pecado original. Belo rosto, bom gosto, você é um sonho de padaria. Doce, cremosa e barata. Ninguém precisava economizar para lhe comprar mas ninguém sabia mais onde vendiam suas porções individuais.

Aí o destino decidiu vender as propriedades que compramos em sociedade e acabamos morando nos quintais do mundo. Sem coleta seletiva, sem internet móvel, sem a modernidade de plástico. Agora as festas são promoções em lojas de conveniência.

Imagem: Howard

AMOR É CASAS BAHIA

terça-feira, agosto 13, 2013 17 Comments A+ a-



Para se comprometer é preciso estar em dívida. Ela amarra as pessoas. É a nota promissória do sentimento, a fatura do relacionamento. Endividados amam. Dependentes financeiramente amam. O amor flui mais na conta corrente do que na corrente sanguínea. Fizemos uma conta e passamos a vida juntos para, supostamente, pagá-la.
Quem não assume uma dívida não tem futuro com ninguém. Não sem a aventura dos empréstimos, sem a busca pela última cifra que fará o mês terminar em beijo, sem o centavo premiado que garante aquele orgasmo múltiplo numa quarta-feira qualquer.

Amor é a prazo, não à vista. Amor é parcelado. Amor é Casas Bahia.

Juro. Com todos os juros.

Imagem: Alyssa Young

NINGUÉM LUTA CONTRA O ÓBVIO

segunda-feira, agosto 05, 2013 7 Comments A+ a-



Em uma análise crítica - porém contestável - de minhas faculdades mentais, emocionais e cardiovasculares, me deparei com um resultado parcial deveras curioso: As correntes que me prendem aos meus maus hábitos são douradas. Assim, quase ninguém poderia ter a ousadia de me julgar deliberadamente, afinal, até o infortúnio de minha propriedade carrega algum resquício de nobreza e isso pode afugentar com notório sucesso eventuais apontamentos negativos dispensáveis.

Antes de verbalizar, eu adjetivo. Atribuo meticulosas qualidades - eventualmente falsas - para conquistar terreno precioso. Nesse processo, o abandono das convicções é vital na estrada até o cobiçado sucesso. Certezas nunca caem bem no look de quem deseja fazer um pouco de história, por mais 'glamourosa' que seja a etiqueta. Não se deve ignorar a sensibilidade antes de disfarçá-la com trajes mais discretos, entretanto, deixe sempre alguns botões abertos para soar socialmente receptivo.

Nem todos nasceram para ser o refrão, por isso é fundamental fazer da sua existência nada menos do que uma ótima primeira estrofe. Às vezes a gente acredita viver num paraíso mas talvez esse privilégio não seja por nossas virtudes admiráveis mas pela total indiferença das trevas. Quando souberem que nossos melhores sorrisos estão distribuindo abraços em filas de supermercado, certamente cairemos desses tapetes mágicos. Não se pode sobrevoar as misérias humanas por uma eternidade finita.

É nesse momento que sinto falta da medicina. Para soar completo aos olhos da sociedade é preciso amar com uma precisão cirúrgica. Ou se aceita os sentimentos como uma patologia grave ou viveremos apenas tratando qualquer acontecimento sentimental como uma pequena infecção.

Imagem: Natty


FALE A LÍNGUA QUE VOCÊ BEIJA

segunda-feira, julho 22, 2013 12 Comments A+ a-



Odeio sopa mas essa foi a única coisa que consegui fazer com sua suposta inocência. Agora, alimento meu insaciável apetite graças às generosas porções que me rendeu.

Você sempre se vestia de segunda-feira e isso deve ter chamado a atenção do meu calendário cheio de feriados e finais de semana. Talvez as coisas boas não tenham a obrigação de acontecer em horário comercial.

A habilidade de transformar pequenos diálogos em discursos de cinema não foram suficientes para evitar que suas boas intenções ficassem de joelhos. Seu desejo de mudar a rotina era o mesmo de mudar o próprio guarda-roupa.

Um oceano inteiro cabia no seu copo d'água e pesava tão pouco.
O céu se desprendeu do teto do seu quarto e não existiam mais asas de anjo no seu número. O trem dos seus sonhos saiu da estação sem sua bagagem.

Eu dava explicações enquanto o mundo me dava os ombros. Acabei me tornando uma verdade ambulante que desfilava por sua rua de paralelepípedos.
Era a pretensão da felicidade que estava escondida atrás de alguns pontos de exclamação.

Está sempre chovendo sobre seu novo penteado e eu não consigo parar de pensar que é apenas o clima com inveja do seu eterno verão. A versão dublada do seu sexto sentido atende por minhas iniciais e engana quem te olha desatento.

Sou uma espécie de relógio barato que só quer sentir o seu pulso.

Imagem: Camila Tripoli

12 DE JUNHO É SÓ UM DIA PRA QUEM SÓ VIVE ELE

quarta-feira, junho 12, 2013 10 Comments A+ a-



Os melhores dias da sua vida não tem datas especiais. Não respeitam comemorações pré-fabricadas. Não acontecem na sincronia dos protocolos que vemos nas comédias românticas.
Hoje é 12 pra alguém, mas você foi feliz em outro número, em outro mês, em outro calendário, em outro momento que não pôde ser eternizado comercialmente.

Não foi um anúncio de desconto para um jantar sofisticado que fez você ter o apetite de procurar uma companhia, tampouco o inverno pretensioso que lhe obrigou a se vestir de braços irresistíveis para servirem de moletom.

A maneira como a construção de um relacionamento é abordada hoje dá a impressão de que os cupidos seguram fuzis ao invés de flechas. Qualquer tentativa de ‘soar agradável fora de época’ é automaticamente identificada como uma forma de compensar um erro ainda não descoberto pela outra pessoa da relação. Talvez por isso tantos casais sigam roteiros programados por toda a vida útil de seus romances.

Duvido que Cleópatra e Júlio César fizessem questão de interromper alguma de suas batalhas épicas para obedecer um calendário aparentemente cardiovascular. A intensidade do que eles compartilhavam juntos era de proporções muito maiores que qualquer status de relacionamento que se atualiza nos dias de hoje. Sherlock Holmes nunca pegaria um caso onde o amor fosse o único suspeito.

Quando se tem conhecimento do que é realmente uma questão de sobrevivência, os sentimentos são encarados com uma maturidade capaz de ignorar quaisquer ‘interferências externas de comércio’ e criar um próprio mapa de confraternizações a ponto de elevar os envolvidos ao nível de verdadeiras divindades.

Acho que todos que se comprometem a entrelaçar os dedos, compartilhar beijos, amassar lençóis, catalogar orgasmos, abraçar novos sonhos, eternizar domingos, gravar nomes em alianças, pular sem paraquedas no precipício, descer as cataratas num barril, plantar uma árvore com raízes de adamantium, acordar em sábados de chuva para comprar o café da manhã, tem a obrigação de serem históricos.

É 12 de junho mas cada um que seja apaixonado e empenhado pelo seu relacionamento sabe que é preciso muito mais do que vinte e quatro horas para se comemorar.
E não existem dias, não existem razões, não existem motivos. Existem pessoas.

Imagem: disgruntledbaker1

QUANDO O AMOR (QUE VOCÊ ACHA QUE É) DA SUA VIDA É O DE OUTRA PESSOA

sexta-feira, maio 24, 2013 14 Comments A+ a-



O breve dura menos. Talvez por isso devesse ser uma exclusividade das pessoas que detém habilidades mais perceptivas. Elas saberiam aproveitar adequadamente o melhor desse momento. Conheceriam os atalhos de uma lembrança e não esgotariam os espaços da memória com reminiscências dispensáveis. 

Assim é a fotografia. Breve.

As recordações criadas pelas imagens soam como ferramentas de uma verdadeira máquina do tempo. Ainda que não se consiga manipular as situações originais, é possível reviver atmosferas e, com um pouco mais de observação, enxergar ações que só seriam conhecidas futuramente.

Nem o mais fervoroso dos pessimistas conseguiria ser infeliz em seus seis primeiros meses de relacionamento sério com qualquer suposto affair de classificação alta entre “mulher em potencial” e “garota dos sonhos”.

(Que os rótulos geram expectativas estratosféricas, não é novidade).

A resistência a tantas coisas em comum - ao diálogo inicial onde tudo é relevante e a cada sílaba dela que se transforma numa sinfonia impecável, digna das grandes obras de Mozart ou Beethoven em seus dias de inspiração exacerbada - torna-se humanamente impossível.

Então ponderamos sobre seus adjetivos com a pretensão de que eles poderiam fazer parte do sobrenome. É a imersão ao universo do encantamento pleno.
As fotos gargalham e contagiam os olhos de quem ousa segurar toda a nossa história nas mãos. Somos bonitos de perto e de longe, para a inveja de Monet.
É a química lícita. Não se vende mas muitos passam a vida toda tentando comprar.

Seria cinematográfico se a rotina não decidisse se convidar para jantar. Uma vez à mesa, todas as refeições são dela. Ela começa a fazer poses em nossos clicks e planeja, sem nenhuma etiqueta, transformar nossa banda em duas carreiras solos.

Com o pacote de admiração no fim, a solteirice parece solúvel em qualquer quantidade de lágrimas desperdiçadas. As descobertas aparentemente voltam e o jogo reinicia do ponto onde você ganhou. Mas, se ganhou, por que voltar a jogar?

As fotografias se multiplicam e não estamos mais nelas. Outros se apropriaram de seu lugar na composição. São mais sinceros e consistentes, estudaram criteriosamente o que seu ex-troféu valorizava. A redoma se formou em volta do seu antigo presente e nenhuma trilha sonora pode te proporcionar um eufemismo confortável ao seu revés emocional.

Palmas de pé para o espetáculo do arrependimento. Cada segundo capturado não pode mais ser compartilhado em tempos atuais. De personagem, você passou a um simples espectador da vida de uma pessoa brilhante que decidiu um dia desfilar nas avenidas do seu quarto.

Mas aí vem aquele som peculiar que representa a epifania e comprova sua inocente incompetência de proporcionar a sensação natural que ela experimenta hoje. Você não poderia fazer parte daquela celebração coerente e bem arranjada.
Em sua melhor forma, vocês só conseguiriam ser um soneto. Eles eram Os Lusíadas.
Vocês eram anotações em guardanapos de bares sem cardápio. Eles eram literaturas, best-sellers.

Encontrar e compreender a real intenção de nossos sentimentos nem sempre é um exercício simples de se fazer. Muitas vezes as marcas são fotografias de dias onde a felicidade era tão presente que não podia ser notada. Fazia parte da gravura, da escultura, da moldura. Mas fazer parte não é o bastante. É preciso mais verbos no infinitivo pra eternizar uma relação.

IDEIA & TEMPO: ANTIGOS INIMIGOS

quinta-feira, maio 02, 2013 12 Comments A+ a-



Ideias parecem um arsenal bélico (isso seria pleonasmo?) que explodem na cabeça sem ao menos um comunicado do Ministério da Defesa. Aquele sentimento de abraçar o mundo tomou conta de todos os territórios da minha razão e desafiou o tempo que não tenho para um duelo épico.

Como se planejar na confusão organizada que se instalou como um software pirata em nossos tempos?
Como colocar em prática os esboços aparentemente geniais sem crucificar horas vitais de sono profundo e fabricação de conhecimento indireto?
Como começar algo novo mesmo sem terminar nenhum dos outros projetos igualmente importantes que seguem por todo o sempre em andamento?
Como se dedicar de maneira considerável a tantos espasmos criativos sem ser seduzido por informações externas que borbulham num caldeirão de uma feiticeira poderosa, a qual chamamos de vida?

Não possuo mais a habilidade de controlar profissionalmente os meus estímulos. No estágio atual de funcionamento, apenas despejo coisas novas, dos mais variados sabores, num bolo de conhecimento que nunca sequer conseguiu chegar ao forno.
Como degustar uma fatia quente de sabedoria quando o garçom cultural não para de servir teorias com o mesmo teor saboroso e obrigatoriamente irresistível?

É, eu sei que mastigar ajuda a digestão. O problema é que eu não consigo parar de comer.

Imagem: ButtercupLiffy

O CAVALHEIRO DA GENTILEZA

segunda-feira, abril 15, 2013 18 Comments A+ a-



Quando avistei a gentileza caminhando distraída, atravessando fora da faixa e com o sinal recém-aberto, reuni forças que nem eu mesmo sabia que possuía e me lancei num ímpeto altruísta-oportunista de salvar uma das mais prestigiosas virtudes de sua precoce aniquilação. 
A sociedade não conseguia se mover com um nível mínimo de cordialidade para compreender os passos livres da boa educação. Um acidente colocaria séculos da evolução humana em risco, tornando as relações interpessoais ainda mais primitivas e monossilábicas.

Era abril e eu queria que o cavalheirismo pudesse chegar ao Natal. Desejava que sobrevivesse ainda que exausto ao estímulos confortáveis da banalidade emocional que estrutura as relações humanas de nossos dias.

Meu desejo era apontar o dedo para a civilização contemporânea, ignorar a sinalização daquele trânsito caótico e mostrar a importância de cativar gentilmente quem nos faz bem.
A conquista consiste em desarmar personalidades e adequar a realidade do outro à uma curta fantasia que criamos em estágios iniciais de aproximação.

Ao longo dos anos, precisei exercitar minha destreza emocional por um objetivo nobre: escapar ileso das investidas implacáveis de um sentimento conhecido mundialmente como pretensão. Conservar o cavalheirismo em seu estado áureo demanda disciplina e muitos acabam se tornando falsos moralistas e/ou conquistadores pretensiosos.

Eu teria todos os motivos catalogados no universo para acolher esse rótulo e poderia desfilar pelas avenidas douradas da soberba sem receio algum de parecer prepotente. E a razão dessa nomenclatura é unicamente a sua voluptuosa existência.

E não estamos aqui falando de romantismo piegas e vago. Trata-se apenas de conduzirmos nossas ações com educação e coerência. Esse respeito nos molda o caráter e multiplica adjetivos de nossa personalidade.

Se os outros cavalheiros alimentam a inveja de três em três horas, é justamente pela honra de apenas a minha pessoa ter seu sabor na cadeia alimentar.

Pequenas coisas acontecem para que algo aparentemente grande aconteça. O imperceptível deveria ser muito mais reverenciado, pena que a gente nunca enxerga o processo, só o resultado final.

Com esses valores na mochila, tentava alcançar a gentileza antes da colisão. A confusão me mostrava outros desejos que precisava salvar. O que realmente pode vir de bom com essa postura?

Percebi o simples. Buscamos dias comuns. Felicidades comuns. Nada que seja obrigatoriamente catalogado como exagerado. Provavelmente o que existe de melhor está tão embutido no cotidiano que a gente não percebe justamente pela não necessidade de confetes e fogos de artifício. Não que a rotina precisa ser aceitada de modo unilateral, mas o dia a dia pautado em determinadas ações previsíveis nos ajuda a relaxar durante longas semanas.
Até o inesperado precisa de uma base organizada para acontecer e ser percebido.
Quem vive num caos não consegue sentir uma mudança mágica em sua existência usual.

E foi assim que a gentileza sobreviveu. E eu consegui colocar pontos finais nos pontos de vista da sociedade. 

NUNCA SE É POBRE PARA PAGAR O PREÇO DOS SONHOS

quarta-feira, março 06, 2013 18 Comments A+ a-



Fazer é o verbo. Sentido é a direção. Se forem vontades, cria-se um impulso. Se forem obrigações, alimenta-se a decepção. O sal do suor tempera os anseios dos que trabalham.



Quando não se pode escolher, todo emprego é apenas um relógio martelando suas verdadeiras expectativas como um suplício corporativo. 
Quando se pode, os dias costumam sorrir com a voz do despertador.



Mas acordar é – e tem que ser - pra todos. Ficar na cama é um jeito confortável de perder a transformação diária do mundo, ainda que existam os que consigam ser mais inteligentes de olhos fechados – e de boca também.



O que não se paga, se desperdiça. Habilidades só valem pela necessidade quando se sabe valorizar o talento. Se você for o dono da empresa da sua vida e a falha estiver na lista de candidatos, não tenha receio em admiti-la.



Pode parecer estupidez mas quem se acostuma com tudo dando certo não tem o tempero emocional necessário quando o revés chega. E ele chega. Você não tem que colocar um capacho escrito “Bem-vindo” com letras em alto relevo na esperança de amenizar suas misérias emocionais. Você só precisa garantir que, quando o inverno passar, nada de bom que existe em você seja levado.



A vida é uma música que a gente compõe todos os dias. Escolha as pessoas certas pra tocar na sua banda, pois sozinho você só tem uma letra onde ninguém canta junto.



Imagem: Sandeep Mishra

PRETÉRITO QUASE PERFEITO

quinta-feira, fevereiro 14, 2013 19 Comments A+ a-



A total fascinação pela surpresa me fez perder os caminhos óbvios até sua conquista. Enquanto meus dedos procuravam os botões de sua inocência, o mundo já tinha aberto seu zíper. Culpa dos atalhos que ignorei para permanecer na maratona das regras onde a linha de chegada é apenas o começo de outra corrida.

Todo o fôlego que perdia com você era encontrado boiando na saliva de algum beijo bom. Eu fingia não guardar rostos, entretando, seu nome era uma das poucas coisas que meu cérebro fazia questão de anunciar em horário nobre. Caro demais para quem tinha veneração por relacionamentos de baixo orçamento mas com enredo brilhante.

Se meu sono era te ver dormir, o mundo estava satisfeito em simplesmente te ver acordar. Você gostava de elogios que não tivessem a necessidade de se pesquisar a veracidade. Por mais que minhas atitudes lhe fizessem acreditar que vivia numa perfeita fantasia, era essa ácida sinceridade que te trazia para a realidade.

Eu vi quando a gaveta decidiu esvaziar suas melhores histórias. Passado palpável não é digno de quem sabe o que quer e em que mãos decide colocar um pouco de vida. Nossas sombras já conversavam sem que necessariamente estivéssemos presentes. Muitos classificariam esses acontecimentos como uma epifania quase completa de coincidências amorosas. Pra mim, demasiada intensidade emocional sem responsabilidade sentimental é apenas uma forma do desejo negligenciar o amor.

Assim, de nada vale um parque de diversões inteiro para quem só consegue se divertir num único brinquedo.

Imagem: Filipe Silva

ERRAR É DESUMANO

quarta-feira, janeiro 16, 2013 18 Comments A+ a-



Para descobrir novas estações, precisei deixar de vestir o meu traje moralista de alta costura. Me arrastei por debaixo da sua porta e ouvi as boas vindas de um mundo ansioso para destronar minha majestade de caráter.

Na moda da superficialidade, todas desfilavam sobre a minha reputação. Os cafajestes dublavam os ecos de minha voz na esperança de reconquistar seus verdadeiros amores. Não que eu fosse o único da minha espécie, mas certamente era o último.

As tentações tem nomes que desconhecemos mas os rostos sempre são familiares. Eu decidi não raciocinar para testar a capacidade que meu coração tinha de mentir.

Quando não se leva nenhuma coisa a sério, a vida é uma festa interminável e o seu copo está sempre cheio. Tentava ficar impressionado por todas aquelas que trocaram a dignidade pela popularidade.

Eu reconhecia todos os movimentos, as estratégias previsíveis, as promessas tão vazias quanto os bolsos de quem não tem carteira assinada.
Suspiros? Nem os doces.

Não precisava de muita agilidade para me desviar de todos os olhares. Era uma pequena prepotência minha. Olhares dizem muito, mas quando nos fixamos apenas nessa ação, ficamos levemente vulneráveis ao imprevisível.

Aquela silhueta indiferente não se destacava da multidão, mas tinha estilo próprio. A respiração era doce e eu me senti analfabeto com toda aquela linguagem corporal. Admiração pode parecer uma pequena faísca, mas é o combustível mais inflamável que existe.

De tão quente, ela parecia ter o poder de fazer com que os verões fossem  eternos durante um simples beijo. Transformou minhas boas ações numa fogueira que atingiu os céus da minha confiança.
Eu havia perdido meus poderes. Meu coração sabia contar uma mentira.

Não seria possível voltar ao meu reino de postura ilibada e diplomacia incontestável. Não poderia reconquistar sua devoção com nenhum artifício surpreendente. A decepção mata a surpresa e o perdão não garante que as linhas da vida sejam escritas sem erros de ortografia.

Nem a minha maior sede foi capaz de beber toda a sua insanidade.
Acabei refém de meus disfarces quando você roubou todas as minhas melhores desculpas.

Algumas vontades são inesperadas e potencialmente irresistíveis. Os oportunistas e falsos românticos vivem dos prazeres imediatos. Nem todas as aventuras são saudáveis para a verdade de cada um de nós.
Por isso, quando decidirem abandonar as certezas da vida, estejam prontos para começar um relacionamento sério com o arrependimento.

Imagem: Emanuel Blenista