ELOGIO SINCERO

terça-feira, agosto 28, 2012 9 Comments A+ a-



Já era tarde para uma declaração inesperada - daquelas que fariam a população feminina suspirar e transpirar - mas ele acreditava ser capaz de conseguir atenção usando velhos truques de conquista.
Pensava que, se os corações tinham que bater, que fossem uns nos outros.

Não tinha a sabedoria de um cortejador profissional mas sabia improvisar com qualquer esperança que ela deixasse cair da sua boca. Era bom em transformar uma pequena sílaba distraída numa frase cheia de adjetivos e verbos.

Talvez fosse melhor colocar uma exclamação na cabeça de uma mulher do que um milhão de reticências. Afinal, se o amor não é nada além de um filme de baixo orçamento, o roteiro tem que ser impecável.

Ele então tirou o celular das mãos dela, afastou os cabelos, segurou em seu rosto e tapou a sua boca com um dedo. Disse apenas uma frase: "Existe mais tecnologia na cor dos seus olhos do que em qualquer lançamento da Apple."

Num primeiro momento, os ouvidos da desejada donzela ex-adolescente não compreenderam o tamanho da reverência feita pelo nobre aspirante a galanteador. Afinal, ela colecionava essas palavrinhas feitas todos os dias, qual a novidade nesse discurso de madrugada?
Foram longos anos se esquivando dos aproveitadores donos de floriculturas, dos oportunistas acionistas de fábricas de chocolate, dos poetas de uma linha só. Nunca tinha sido conquistada, apenas convencida.

E enquanto ela fingia ignorar aquela pequena investida audaciosa, ele começou a dialogar com os botões de sua camisa. Fez amizade sincera com o seu perfume e conseguiu passar um tempo perto do seu pescoço.
Todos os acessórios que ela utilizava foram encantados despretensiosamente e conspiravam a favor do exército romântico do herói indulgente.
O esmalte rosa - levemente lascado - em seus dedos lhe dava conselhos sobre como tocar suas mãos. As pulseiras douradas contavam atalhos valiosos para segurar em seus braços com segurança.
Os sapatos ensinavam técnicas de massagem nos pés e o batom...

Nesse momento, ela despertou da sua nuvem de interrogações e interrompeu a informação privilegiada que ele receberia do seu colorante labial. Queria a experiência única de descobrir o amor pela razão e sem o mundo exageradamente colorido da emoção.

"Espero que isso seja muito mais do que um elogio sincero”, disse ela um pouco antes de fechar os olhos e seguir na velocidade da luz na direção de sua boca.

No idioma dos beijos, a língua precisa ser fluente. E ele soube conversar em seu dialeto.

Imagem: Artur K