SEM MAQUIAGENS PARA A VIDA

quinta-feira, junho 28, 2012 6 Comments A+ a-



Sem maquiagens para a vida.
Era assim que as coisas funcionavam quando se perdia o controle.
A inocência se disfarçava de um traje conhecido como desinformação e assim perdia todas as guerras sem precisar sustentar uma desculpa.
Grandes finais não eram aplaudidos pois as mãos tinham calos que impediam a produção de qualquer som reverente.
Chovia em todas as estações. Eram gotas intermitentes que pareciam marcar um território eterno sobre os antigos domínios do seu sol.
Os afortunados compravam amor para se manter aquecidos, mas não existia mentira quente o bastante para simular uma temperatura parecida com o sentimento que havia desaparecido.
Eram nuvens pesadas, assim como a sua consciência. Eram barcos encalhados, assim como seus talentos.

Sem maquiagens para a vida.
Nada é tão abstrato que não possa ser transportado para a realidade do seu conhecimento.
As horas eram correntes que se arrastavam por suas memórias. Você sente o cheiro mas não reconhece a origem.
A silhueta se forma mas as suas mãos esqueceram como contorná-la.

A trilha sonora diminui quando a câmera passa por seu rosto.
Você é o inimigo que o roteiro prefere esconder. É um arquétipo desfigurado, amparado por sombras do que não viveu.
Anda descompassado, ri das regras. Quando as luzes do mundo se apagaram, ele saberia que procurariam refúgio na sua coleção de abajures.
Guardava o antiquado até que viesse soar novo e tecnológico. Iria iluminar toda e qualquer escuridão. As trevas seriam assassinadas.

Sem maquiagens para a vida.
Seu beijo era a única caligrafia que aprendera. Se revelou imperfeito pela devoção ao orgulho. Ele era maior que o seu melhor abraço e durava óperas inteiras.
Quando falava, eram gritos ensurdecedores. As verdades eram necessariamente escandalosas, ou seja, quando falava, tomava conta.
Elogios eram amplificados. Sabia como se transformar na única opção possível. O poder máximo de ser o indispensável.
Sua virtuosidade era abastecida pelos incontáveis sorrisos que produzia em escala industrial.

Sem maquiagens para a vida.
Os pesadelos não se sentiam confortáveis em sua cama. Ela era tão completa em seus sonhos que não existia espaço para nenhum revés do sono.
Quando fechava seus olhos, nada conseguia atravessar sua fortaleza de boas notícias. Os tolos chamariam precipitadamente de paraíso. Mas não. Era algo maior do que a perfeição praticada 7 dias por semana.
Em sua olimpíada, os recordes eram quebrados a cada cochilo.

Sem maquiagens para a vida.
Foi assim que compartilharam o mesmo oxigênio e desafiaram a natureza das pessoas.

Imagem: Ryan Jorgensen

INGRESSOS PARA A FELICIDADE

sexta-feira, junho 22, 2012 6 Comments A+ a-



Estou estacionado em algum lugar que fica entre a sua dignidade e seu amor-próprio. Eu nunca soube dirigir com responsabilidade quando o roteiro das minhas viagens precisava fazer alguma escala em seus territórios.

Enquanto o mundo se preocupava em colorir seus dias cinzas, eu me concentrava na maneira única de você se divertir sem a necessidade de estar sol ou ser final de semana.

Meu passatempo favorito era diagnosticar suas intensas felicidades. Não existiam motivos, não existiam regras nem protocolos, a sua euforia simplesmente explodia como fogos de artifício em virada de ano.

Você beijava a noite e o dia sentia inveja.

Existia uma simplicidade sofisticada em seus passos, talvez por isso uma simples caminhada sua soava como um desfile de moda conceitual.

Manobrei o volante das suas emoções como um piloto veterano. Encontrei a melhor vaga para aproveitar o seu shopping center de talentos.

Você era uma promessa de filme bom. Lembro quando assisti o seu trailer e quis comprar todas as locadoras do mundo na expectativa de ser o único telespectador.

Você decorou minhas músicas sem que eu precisasse aumentar o som. Todas as dedicatórias se apaixonaram pelo seu endereço e você precisou mudar de casa.

É sempre refrão quando todas as palavras fazem sentido.
É sempre verão quando se tem domínio de todas as estações.

Você é aquele silêncio do primeiro beijo.

Imagem: Deric Underhill

UM MILHÃO DE SISTEMAS SOLARES

terça-feira, junho 05, 2012 10 Comments A+ a-



Enquanto eu fazia piadas com os seus trejeitos, você aumentava o som do carro que nunca tivemos. Sua voz suscitava a melhor definição de esperança que já inventaram.
Minha boca que ensaiou beijos por toda a história sempre se via refém das suas estações. Os dias se repetiam sem que existisse a mais remota possibilidade de tédio.

Perdia horas inteiras num momento estático. Era a harmonia da sua fisionomia, eram cálculos matemáticos avançados que resultaram numa equação de beleza admirável. Tardes intermináveis onde ninguém ousava ter preguiça da vida pois o sangue era um maratonista em nossas veias.

Você dizia que seu corpo era culpado apenas para que eu fizesse justiça com as próprias mãos. Esse era o tribunal onde qualquer um confessaria o mais hediondo dos crimes só para assistir o seu julgamento.

Ignoro olhares externos, me desvio das investidas, recuso convites. A tentação é o suborno que a paixão acredita ser irrecusável, mas você tinha pago todas as parcelas do financiamento que fez do meu antigo coração.

O destino prometeu em campanha política que esse amor seria cheio de açúcar.
Fez comício superfaturado, com artistas consagrados, fogos de artifício e algodão-doce. Rodízio de pizzas com 36 sabores. Comprou todos os votos, venceu em todos os colégios eleitorais, tomou posse de tudo e de mim.

Era sempre abril e as músicas tinham um refrão fácil de decorar. Eu desabotoei os seus medos e me orgulhava por ser o único cara que te fazia chorar... de rir.

Não era o inverno que lhe causava arrepios. Não era o verão que lhe fazia suar.

O mundo era mais fácil de conquistar do que você. Por isso que todos queriam conquistar o mundo. Eu queria o que ninguém poderia ter. E agora eu posso dizer que conquistei muito mais do que o mundo. Afinal, você está muito além de um planeta. Você é a reunião de um milhão de sistemas solares.

Imagem: Stephan Dumothier