A SIMPLICIDADE NÃO USA DISFARCES

terça-feira, dezembro 11, 2012 20 Comments A+ a-



Por mais que eu goste de atitudes imprevisíveis, gestos inesperados e ações que rasgam roteiros premiados, algo em minhas percepções naturais tem um encantamento inexplicável por tudo que seja espontaneamente simples.
Talvez por isso eu seja indiferente a toda e qualquer tentativa de pretensão.
Mesmo que a sua beleza seja grega e seu corpo digno de uma atleta olímpica no auge da carreira, todos os movimentos que forem previamente ensaiados serão automaticamente detectados e imediatamente enviados para um lugar na minha consciência onde a admiração não tem permissão pra entrar.

O desejo de passar uma imagem que não existe esvazia por completo o meu estoque de interesse. Por mais que o falso seja quase uma regra em nossos dias, minha teimosia em enxergar a originalidade é tão precisa que reconheceria traços de qualquer pessoa mesmo que estivesse num baile de máscaras.
Talvez nem o próprio amor seja tão exigente e o mundo o tenha acolhido como um sentimento maior do que realmente é.
Ao olhar fixamente para um relacionamento, nos deparamos com diferentes graus de envolvimento e me parece de uma arrogância descabida querer classificar o limite dessas devoções como simplesmente amor.
O apogeu pode ter outra nomenclatura. Talvez quatro letras não sejam suficientes para descrever por completo a realidade de um história entre dois seres humanos.

Isso deixa a minha desconfiança ainda mais aguçada.
Ao interpretar beijos, posso reconhecer padrões. Isso não anula a capacidade de se deixar levar por boas atrizes numa noite qualquer. Faz parte do jogo. O trunfo está em saborear o que existe de genuíno na personalidade de quem está disposto a te seduzir.
Nada é mais excitante que a verdade. Nada é mais excitante que a vontade. Nada é mais excitante do que ser fiel às suas convicções e encontrar alguém disposto a elevar suas expectativas para limites que você ainda desconhece.
É assim que ampliamos nossos parâmetros emocionais e nos tornarmos cada vez mais prontos para uma relação em potencial.

Se você não tem habilidade suficiente para descobrir a verdade de alguém, estará fadado a viver preso numa felicidade que dura menos tempo que uma pipoca no micro-ondas.

Imagem: Federico Venuda

COMO DESFAZER UM NÓ NA GARGANTA

segunda-feira, setembro 24, 2012 41 Comments A+ a-




Entenda que tudo é uma questão de temperamento. O que não funciona contigo pode facilmente fazer outra aventureira desejar tatuar o meu nome na nuca.
Por mais que a sua beleza seja uma falta de educação, a pior falta é a do amor que nem assiste mais as aulas. 
Não é a sensação de posse eterna que salvará esse ano letivo. Não são provas com consulta que alimentarão a sabedoria de um sentimento para o qual nunca tivemos vocação.
Essa felicidade em saborear a liberdade não está nos livros que nos obrigaram a ler. Eu acabei fazendo a sua lição de casa e aprendendo a viver por nós dois. Abracei desafios maiores que seu ego e não existem razões para que eu me matricule no seu coração por mais uma temporada.

Se for para cair no seu conceito, que seja de boca. Peço a conta dos seus serviços mas pagarei até o último centavo com amor. Se você ler nosso contrato de relacionamento, saberá que respeitei todas as cláusulas. Cumpri até promessas que não fiz só pra não ficar no escuro. Afinal, seu sorriso foi por muito tempo a única luz que existia em minha vida.
Ao mudar de ares, mudei de olhares. Nunca fomos invencíveis juntos, não conseguimos ser super-heróis com a capacidade de nos salvar de nós mesmos. E sinceramente, o mundo dos vilões é muito mais interessante do que essa teoria blasé que nos imputaram.
Entre o certo e o errado, eu escolhi você e a sua verdade. O problema é que elas funcionaram como anestésicos emocionais com prazo de validade vencido. Logo, tudo não passou de uma série de efeitos colaterais.


O show só começa pra quem perde o medo do palco. Eu sei todas as músicas, a diferença é que você não está mais na banda. E apesar de adorar os seus acordes, o sucesso não aceitou fazer escalas em sua capital.

Imagem: Jeremyah Rodrigues

CRIATIVIDADE: UMA HISTÓRIA DE AMOR

quarta-feira, setembro 12, 2012 14 Comments A+ a-



O problema em manter um relacionamento sério com a criatividade é que não existe nenhum protocolo a ser seguido. Nada que você tenha feito em seus envolvimentos passados funcionará aqui.

Esqueça as fórmulas infalíveis. Nenhuma regra pode ser aplicada nessa relação. Tudo é movido pela curiosidade, pelo paraíso que se pode encontrar em meio a um improviso, pelas soluções inspiradas que aparecem apenas após horas de transpiração.
Para se manter ao lado dela, você não pode ser nada menos que excelente. Ter prazer indelével em satisfazer todo e qualquer anseio, sempre com mais de uma opção de saciedade. Sempre terá que sobrar.

Encantar é o verbo obrigatório. Ou você a faz sorrir com os olhos ou viverá condenado à uma gargalhada eterna de desaprovação.
Só devorando os livros, mastigando páginas de revistas e até mesmo beliscando algumas bulas de remédio será possível fazer ela sentir algum apetite por você.


Ela se excita quando você troca o teclado pelo papel, quando seus ouvidos decidem escutar novas canções, quando você muda o caminho de volta pra casa, quando você oferece outras possibilidades ao seu cotidiano...

Todos os dias serão motivos para você encontrar novas maneiras de surpreender e de colecionar feitos inesquecíveis. Dessa forma, você entenderá o valor de cada pequena conquista quando a criatividade te beijar na boca e desejar alugar um quarto nos seus braços.

Uma vez na sua vida, você não hesitará em transformar esse namoro em matrimônio. Afinal, além de linda e cobiçada por nações, a criatividade é fiel, estimulante, extremamente gostosa, e o mais importante: te faz ser uma pessoa melhor do que qualquer outra coisa que um dia você já foi.

Imagem: Arnab Choudhury

ELOGIO SINCERO

terça-feira, agosto 28, 2012 9 Comments A+ a-



Já era tarde para uma declaração inesperada - daquelas que fariam a população feminina suspirar e transpirar - mas ele acreditava ser capaz de conseguir atenção usando velhos truques de conquista.
Pensava que, se os corações tinham que bater, que fossem uns nos outros.

Não tinha a sabedoria de um cortejador profissional mas sabia improvisar com qualquer esperança que ela deixasse cair da sua boca. Era bom em transformar uma pequena sílaba distraída numa frase cheia de adjetivos e verbos.

Talvez fosse melhor colocar uma exclamação na cabeça de uma mulher do que um milhão de reticências. Afinal, se o amor não é nada além de um filme de baixo orçamento, o roteiro tem que ser impecável.

Ele então tirou o celular das mãos dela, afastou os cabelos, segurou em seu rosto e tapou a sua boca com um dedo. Disse apenas uma frase: "Existe mais tecnologia na cor dos seus olhos do que em qualquer lançamento da Apple."

Num primeiro momento, os ouvidos da desejada donzela ex-adolescente não compreenderam o tamanho da reverência feita pelo nobre aspirante a galanteador. Afinal, ela colecionava essas palavrinhas feitas todos os dias, qual a novidade nesse discurso de madrugada?
Foram longos anos se esquivando dos aproveitadores donos de floriculturas, dos oportunistas acionistas de fábricas de chocolate, dos poetas de uma linha só. Nunca tinha sido conquistada, apenas convencida.

E enquanto ela fingia ignorar aquela pequena investida audaciosa, ele começou a dialogar com os botões de sua camisa. Fez amizade sincera com o seu perfume e conseguiu passar um tempo perto do seu pescoço.
Todos os acessórios que ela utilizava foram encantados despretensiosamente e conspiravam a favor do exército romântico do herói indulgente.
O esmalte rosa - levemente lascado - em seus dedos lhe dava conselhos sobre como tocar suas mãos. As pulseiras douradas contavam atalhos valiosos para segurar em seus braços com segurança.
Os sapatos ensinavam técnicas de massagem nos pés e o batom...

Nesse momento, ela despertou da sua nuvem de interrogações e interrompeu a informação privilegiada que ele receberia do seu colorante labial. Queria a experiência única de descobrir o amor pela razão e sem o mundo exageradamente colorido da emoção.

"Espero que isso seja muito mais do que um elogio sincero”, disse ela um pouco antes de fechar os olhos e seguir na velocidade da luz na direção de sua boca.

No idioma dos beijos, a língua precisa ser fluente. E ele soube conversar em seu dialeto.

Imagem: Artur K

A MARCHA FÚNEBRE DO ROCK

segunda-feira, julho 23, 2012 14 Comments A+ a-



Eu tinha acabado de montar a minha bateria numa casa noturna do interior de São Paulo. Era um sábado de julho e chovia torrencialmente, só pra variar (poucas pessoas usam essa coisa de “chuva torrencial”, nem sei porque usei aqui, provavelmente essa parte será eliminada na edição).
De uns tempos pra cá eu descobri que São Pedro é fã incondicional da minha banda. Sempre que marcamos um show ele faz as nuvens excursionarem até o evento. Mas isso não vem ao caso agora, o fato é outro. O dia que ele comparecer pessoalmente eu até lhe vou dar uma camiseta oficial do Barão do Tom pra ele – se a gente fizer uma até lá.

Somos uma banda de rock, se assim pode chamar nos dias de hoje um grupo que usa distorção em suas guitarras e pedal duplo em sua bateria. Honestamente eu tento colocar melodia em composições simples para soar com um mínimo de caráter e identidade. Isso também é uma outra discussão, só estou apenas tentando ambientar a história toda.

Então estava lá o técnico de som ajustando os microfones em minha Odery branca, recém-comprada. Ao fundo, o som ambiente reproduzia aos quatro ventos algum sucesso sertanejo da atualidade. Pra mim, um disparate quanto à música que seria apresentada naquela noite.
Mas eu não sou dj, nem técnico de som. Eu fiz Humanas e tenho uma inclinação maior que a da Torre de Pisa para percussão.

Enfim, durante esse processo, o mesmo técnico de som (aposto que vocês nunca leram “técnico de som” tantas vezes num mesmo texto) fez um comentário inesperado naquela úmida noite paulista:

“Hoje as baladas não tem mais espaço para Pop Rock. Vocês só estão aqui hoje porque vai tocar uma dupla sertaneja depois de vocês. Hoje, apenas o rock não segura uma casa noturna, não garante público, não estimula as pessoas a saírem de casa.”

Seria verdade essa afirmação?
Não sei, até porque antes mesmo que eu pudesse formular um princípio de raciocínio, ele continuou sua explanação:

“Vocês podem ver (ouvir) as rádios. Ninguém divulga mais rock. A gente não sabe quem está lançando disco, as músicas são todas velhas, não tem nada de novo nesse estilo sendo mostrado.”

Nesse ponto o meu cérebro já estava na página 654 nesse livro de 1 milhão de páginas que se chama Vida. E, sinceramente, ele não estava completamente errado.

Antes de acusar a sociedade atual de estar encefálica, previsível e de fazer pompoarismo com os refrões das canções sertanejas, vou discorrer sobre alguns pontos importantes nesse caso.

Longe de mim achar que um estilo musical possa definir a personalidade de alguém. O cara pode usar chapéu e ter uma conta bancária maior que todas as fazendas que o pai dele administra.
O sujeito pode ouvir as onomatopéias do Gustavo Lima no último volume do seu Golf 2008 e ser um respeitado profissional num escritório de advocacia.
Mas são essas as flores que estão jogando no caixão do rock?
O coveiro está sepultando um estilo musical histórico enquanto compra o DVD pirata do novo show do Michel Teló?
As rimas ficaram pobres e passaram a trabalhar por qualquer miséria que o Fernando e Sorocaba possam pagar?

Mas o que o rock tem feito? O que tem questionado?
É muito piegas vir aqui e cobrar do rock alguma atitude com base em toda a sua história. Seria tarefa dele fazer isso, não? Só que ultimamente os protestos ficaram todos com o rap. Olha que sério!
Tem rapper muito mais rock n’ roll do que uma própria banda de rock.

Não aceito a ideia de que o neurônio das pessoas dessa geração prefira usar camisas xadrez e ejacular precocemente com qualquer toque de sanfona. Ignoro esse monopólio pretensioso, fabricado e xerocado.

Ninguém está aqui pedindo para que um novo ídolo apareça e coloque o vagão dos bons acordes nos trilhos.
O que faria muito bem à saúde dos ouvidos desse século é a simples manifestação de boas ideias musicais. Honestidade sonora que não se vista com os trajes da moda atual. Canções que não se escondam nos estereótipos do suposto sucesso.

Oferecer mais do mesmo é facilitar a escolha dos preguiçosos.
O que encanta é a novidade feita com estilo.
E o rock sempre foi mais do que quatro letras e um punho fechado com dois dedos levantados.

Talvez o rock nunca venha a ser plenamente popular mas não pode se tornar item de colecionador.

Imagem: Giacomo Mirarchi

PASSADOS QUASE PRESENTES

terça-feira, julho 10, 2012 9 Comments A+ a-



Eu tenho aquele sentimento meio anos 90.
Passado curto, quase paupável, sabe? Você olha pra trás e ainda não deu pra virar história.
Não entrou nos livros, não ficou célebre. Está a dois passos do que foi, alguns outros do que poderia ser.

Não dá nem pra se arrepender pois quase acabou de ser feito. É como interromper uma frase um pouco antes do ponto final.
Você quer voltar e guardar pra sempre o que justamente acabou de viver.
É a ante memória, um pré-purgatório. Um inimigo do presente que desconhece o futuro.

Nostalgia não existiria. Saudosismo, menos ainda.
O que não é difícil de se lembrar fica impossível de se esquecer.
Passados curtos merecem mais Oscars. Felicidades recentes, prematuras, mais fogos de artifício.

A sensação fresca e viva. O final de um sorriso sincero. O momento em que os beijos terminam e os olhares se voltam.
Vivo. Respirando. A curta eternidade.

Imagem: Mykola Lunov

AS 15 ESTROFES DE UMA CENA

terça-feira, julho 03, 2012 4 Comments A+ a-



O verão acabou junto com o seu café
Meus planos com você não eram planos
Eram acidentados, íngrimes, eram verticais

E caímos pra cima, andamos de ré
Adivinhava o que não falamos
Fomos culpados, fomos imorais

Beijei seu passado de língua
O presente foi um flerte e o futuro uma despedida
Paramos o tempo e o fizemos mostrar as identidades
Éramos autoridades de nossas vidas

Nós perdemos a memória junto com nossa dignidade
Era glamour disfarçado de sorte
Jogamos os dados e compramos à prazo uma felicidade
Mesmo sem ter sul nem norte

Oficialmente eu te empurrei para meus próprios braços
Passei a noite como a vida passou por seus olhos atentos
Os meses então cobraram
Os anjos, esses cantaram
E os erros eram nossa única herança boa

Contei nossa história em pequenos pedaços
Você era um manequim dos meus melhores momentos
Os vinhos adoçaram
Os vizinhos, esses nos convidaram
Mas sua maquiagem saiu com a garoa

Seria mentira, mas era sua respiração
Era o disfarce do interesse
Então contratamos o fracasso

Mudei de ideia e de nação
Gostaria que agradecesse
O tamanho do meu abraço

Gostava de você bipolar
Um dia era casa, no outro, um lar
A certeza da incerteza
Era o DNA de nossa natureza

A cura estava num drink barato
Você sabia o nome do garçom
Sozinho, desenhei seu retrato
Bebemos e aumentamos o som

Na minha carteira só cabiam notas musicais
Esse era o dinheiro que tinha pra dar
Mas essas cifras não valem capitais
E a ruína passou a ser o meu lugar

Era o baile de debutante do seu sorriso
Cheguei atrasado e você dançou sozinha
Fingir emoções era preciso
Essa era a fortuna que sempre soube que tinha

Pegamos fogo, congelamos, fomos os 4 elementos
Escolhi minhas armas e você nunca soube atirar
Estava de terno, era o último dos meus casamentos
Eu disse sim e alguém na igreja mandou esperar

Tudo engordou, menos a nossa conta bancária
Eu queria amor, você queria ser milionária
Revistou meus bolsos em busca de trocados
E, assim como meu ego, estavam todos furados

Essa geração de arrependimentos te viciou
Os estereótipos acabaram com açúcar da nossa relação
Deixei minhas digitais mas você as apagou
E meu legado virou um ponto de interrogação

Imagem: Demetra Kotakis

SEM MAQUIAGENS PARA A VIDA

quinta-feira, junho 28, 2012 6 Comments A+ a-



Sem maquiagens para a vida.
Era assim que as coisas funcionavam quando se perdia o controle.
A inocência se disfarçava de um traje conhecido como desinformação e assim perdia todas as guerras sem precisar sustentar uma desculpa.
Grandes finais não eram aplaudidos pois as mãos tinham calos que impediam a produção de qualquer som reverente.
Chovia em todas as estações. Eram gotas intermitentes que pareciam marcar um território eterno sobre os antigos domínios do seu sol.
Os afortunados compravam amor para se manter aquecidos, mas não existia mentira quente o bastante para simular uma temperatura parecida com o sentimento que havia desaparecido.
Eram nuvens pesadas, assim como a sua consciência. Eram barcos encalhados, assim como seus talentos.

Sem maquiagens para a vida.
Nada é tão abstrato que não possa ser transportado para a realidade do seu conhecimento.
As horas eram correntes que se arrastavam por suas memórias. Você sente o cheiro mas não reconhece a origem.
A silhueta se forma mas as suas mãos esqueceram como contorná-la.

A trilha sonora diminui quando a câmera passa por seu rosto.
Você é o inimigo que o roteiro prefere esconder. É um arquétipo desfigurado, amparado por sombras do que não viveu.
Anda descompassado, ri das regras. Quando as luzes do mundo se apagaram, ele saberia que procurariam refúgio na sua coleção de abajures.
Guardava o antiquado até que viesse soar novo e tecnológico. Iria iluminar toda e qualquer escuridão. As trevas seriam assassinadas.

Sem maquiagens para a vida.
Seu beijo era a única caligrafia que aprendera. Se revelou imperfeito pela devoção ao orgulho. Ele era maior que o seu melhor abraço e durava óperas inteiras.
Quando falava, eram gritos ensurdecedores. As verdades eram necessariamente escandalosas, ou seja, quando falava, tomava conta.
Elogios eram amplificados. Sabia como se transformar na única opção possível. O poder máximo de ser o indispensável.
Sua virtuosidade era abastecida pelos incontáveis sorrisos que produzia em escala industrial.

Sem maquiagens para a vida.
Os pesadelos não se sentiam confortáveis em sua cama. Ela era tão completa em seus sonhos que não existia espaço para nenhum revés do sono.
Quando fechava seus olhos, nada conseguia atravessar sua fortaleza de boas notícias. Os tolos chamariam precipitadamente de paraíso. Mas não. Era algo maior do que a perfeição praticada 7 dias por semana.
Em sua olimpíada, os recordes eram quebrados a cada cochilo.

Sem maquiagens para a vida.
Foi assim que compartilharam o mesmo oxigênio e desafiaram a natureza das pessoas.

Imagem: Ryan Jorgensen

INGRESSOS PARA A FELICIDADE

sexta-feira, junho 22, 2012 6 Comments A+ a-



Estou estacionado em algum lugar que fica entre a sua dignidade e seu amor-próprio. Eu nunca soube dirigir com responsabilidade quando o roteiro das minhas viagens precisava fazer alguma escala em seus territórios.

Enquanto o mundo se preocupava em colorir seus dias cinzas, eu me concentrava na maneira única de você se divertir sem a necessidade de estar sol ou ser final de semana.

Meu passatempo favorito era diagnosticar suas intensas felicidades. Não existiam motivos, não existiam regras nem protocolos, a sua euforia simplesmente explodia como fogos de artifício em virada de ano.

Você beijava a noite e o dia sentia inveja.

Existia uma simplicidade sofisticada em seus passos, talvez por isso uma simples caminhada sua soava como um desfile de moda conceitual.

Manobrei o volante das suas emoções como um piloto veterano. Encontrei a melhor vaga para aproveitar o seu shopping center de talentos.

Você era uma promessa de filme bom. Lembro quando assisti o seu trailer e quis comprar todas as locadoras do mundo na expectativa de ser o único telespectador.

Você decorou minhas músicas sem que eu precisasse aumentar o som. Todas as dedicatórias se apaixonaram pelo seu endereço e você precisou mudar de casa.

É sempre refrão quando todas as palavras fazem sentido.
É sempre verão quando se tem domínio de todas as estações.

Você é aquele silêncio do primeiro beijo.

Imagem: Deric Underhill

UM MILHÃO DE SISTEMAS SOLARES

terça-feira, junho 05, 2012 10 Comments A+ a-



Enquanto eu fazia piadas com os seus trejeitos, você aumentava o som do carro que nunca tivemos. Sua voz suscitava a melhor definição de esperança que já inventaram.
Minha boca que ensaiou beijos por toda a história sempre se via refém das suas estações. Os dias se repetiam sem que existisse a mais remota possibilidade de tédio.

Perdia horas inteiras num momento estático. Era a harmonia da sua fisionomia, eram cálculos matemáticos avançados que resultaram numa equação de beleza admirável. Tardes intermináveis onde ninguém ousava ter preguiça da vida pois o sangue era um maratonista em nossas veias.

Você dizia que seu corpo era culpado apenas para que eu fizesse justiça com as próprias mãos. Esse era o tribunal onde qualquer um confessaria o mais hediondo dos crimes só para assistir o seu julgamento.

Ignoro olhares externos, me desvio das investidas, recuso convites. A tentação é o suborno que a paixão acredita ser irrecusável, mas você tinha pago todas as parcelas do financiamento que fez do meu antigo coração.

O destino prometeu em campanha política que esse amor seria cheio de açúcar.
Fez comício superfaturado, com artistas consagrados, fogos de artifício e algodão-doce. Rodízio de pizzas com 36 sabores. Comprou todos os votos, venceu em todos os colégios eleitorais, tomou posse de tudo e de mim.

Era sempre abril e as músicas tinham um refrão fácil de decorar. Eu desabotoei os seus medos e me orgulhava por ser o único cara que te fazia chorar... de rir.

Não era o inverno que lhe causava arrepios. Não era o verão que lhe fazia suar.

O mundo era mais fácil de conquistar do que você. Por isso que todos queriam conquistar o mundo. Eu queria o que ninguém poderia ter. E agora eu posso dizer que conquistei muito mais do que o mundo. Afinal, você está muito além de um planeta. Você é a reunião de um milhão de sistemas solares.

Imagem: Stephan Dumothier

O MANUAL DA INTEGRIDADE

sexta-feira, maio 25, 2012 12 Comments A+ a-



Não importa o quão maravilhosa seja a imagem. Não importa a riqueza de detalhes que você a descreva. Não importa a resolução do momento, a luz produzida artificialmente com a pretensão de soar natural. Não importa.

A verdade é que se você errar a trilha sonora, não existirá fotografia que se transforme em quadro. Não existirá rabisco que culmine em obra de arte.
É a forma como se envolve que coloca cores no significado.
Não é simplesmente adivinhar todas as notas do perfume, a composição das fragrâncias. O seu olfato tem que estar emocionalmente envolvido.
Quando você reconhece o cheiro, sua imaginação funciona na velocidade da luz.
É o comprometimento, a cumplicidade. Entregar mais do que se pede. Não se prender a nenhum tipo de padrão. Quebrar conceitos como se quebram recordes.
Nascer da excelência e viver dos frutos dela. Desejar o melhor muito mais do que uma ambição gananciosa, apenas lutar com armas brancas até alcançar a sua realização moral.

Se a vida lhe der uma guitarra, toque no volume máximo. Faça das cordas suas amantes. Faça da música sua identidade. Encante. Faça valer a pena o ar que você respira. Seja fiel por natureza, não por conveniência.

Conquiste com propriedade. Enlouqueça seu alvo. Não ofereça menos que a estafa máxima do que as pessoas reconhecem por prazer. É sua responsabilidade se tornar inesquecível. É sua responsbilidade contar os passos de quem tem signficado pra você. É sua responsabilidade fazer o comum se transformar em novidade todos os dias.

Não provoque lágrimas em quem te protege da chuva, você não sobreviverá com o arrependimento. Os injustos não podem fazer planos pois a sua vida termina repentinamente. Então procure ser correto com as imperfeições da humanidade.

Não cobre a mesma intensidade do amor que oferece. Não poupe, não se esconda das suas vontades. O mundo dá voltas mas pode facilmente esquecer o endereço da sua casa.

Imagem: Ben Robson

MÁQUINA DO TEMPO DIÁRIA

quarta-feira, março 21, 2012 8 Comments A+ a-



Olhar para a infância e procurar entender os valores que carregávamos sobre nossas pálpebras é um exercício curioso que pode se tornar revelador, depende apenas do quanto desejamos nos aprofundar nas experiências que não tivemos quando os dígitos de nossa idade eram menores que dois.

A inocência é – invariavelmente - um requinte da vida. Um instrumento que não necessita de aulas para ser tocado profissionalmente. 
É ela que consegue oferecer a surpresa verdadeira, o delírio de cada pequena descoberta, o fascínio por qualquer acontecimento inesperado.



Penso em como não imaginava o que seria de mim.

Quando não temos a obrigação de lutar pela própria vida, nós vivemos realmente um dia de cada vez. Cada amanhecer é uma nova grande aventura, não existem prazos para a felicidade acontecer. As únicas expectativas são as datas comemorativas que nos são imputadas desde o berço. De resto, tudo é uma novidade mágica.

Quando se é criança, a vida tem o status de vida mesmo. Viver é um presente e nós abrimos esse embrulho todos os dias.



Eu escrevia sem a pretensão de ser redator. Eu batucava sem a idealização de ser baterista. Essa essência dos talentos que começavam a se desdobrar timidamente é algo extraordinário por alguns motivos capitais: Não existiam segundas intenções. Não se premeditavam atitudes para levar vantagens nisso ou naquilo. Não era possível fingir sorrisos para ganhar a simpatia dessa ou daquela pessoa.

Essa era a naturalidade que nenhum altruísta declarado conseguiria reproduzir hoje.



Às vezes olho para as minhas baquetas descansando sobre a bateria que sonhei tanto em comprar e lembro de como as marcas não importavam.

Era o som que me encantava, a possibilidade de reproduzir o que eu apenas fazia de conta.

Olho para esse teclado, para a tela, para as páginas e volto para as aulas de Português, de Redação, de Literatura e Poesia.

Era improvisação, era um feeling inocente que eu gostaria de ter capturado e mantido em um cativeiro criativo. Eram rimas que vinham em passeatas, em vozes claras e precisas. Nada era exagerado nem forçado. Era uma alquimia de naturalidade que apenas a inocência seria capaz de oferecer.



O significado de algumas palavras eram desconhecidos na prática. 
Todos somos famosos em nossa realidade nostálgica, todos nos admiramos e não existem os holofotes da sociedade para apontar as diferenças e forçar um norte desnecessário para o futuro. O futuro era o presente. Justamente porque o amanhã sempre estava tão perto.



Esse é um dos poucos crimes que a experiência comete. Ao comprarmos sabedoria, pagamos juros que são debitados da nossa inocência.

Imagem: Wilco Westerduin

TRÊS LADOS

segunda-feira, fevereiro 20, 2012 21 Comments A+ a-



Você quer um lugar na cama. Eu quero ter o seu sobrenome.
Quero tirar a roupa da mente. Despir os conceitos, a nudez é uma purificação.
Você pode facilmente reconhecer alguém que não desperdiça a vida nos estereótipos.
Não tratem o amor como um conto da cripta, um romance de carnaval, uma decoração barata para um festa de 15 anos. Não é doce demais para os diabéticos emocionais. Não é exageradamente salgado para os que vivem escravos de uma maresia inconsciente. Não é equilíbrio, não é paz, não é conforto eterno, não é promessa de garantia.

Quero razões sem a necessidade de argumentos. Manhãs ao invés de madrugadas. Brincar com o tempo, confundir os ponteiros. Vender abraços que todos possam pagar. Descobrir vícios entre beijos antigos que o amor faz soar tão novos.
A etiqueta não importa quando eu já desabotoei os seus medos. O chão clama por suas roupas. As paredes, por suas mãos. O ventilador, por sua transpiração.

As asas passam pela minha porta. O amor se rasteja em qualquer fresta, você só precisa deixa-lo espiar seus movimentos.
Ela dança frenética sobre as páginas dos livros que não leu, mas o coração sabia memorizar a parte prática da coisa. A teoria foi assassinada pelo tato do seu amante favorito. Não era mágica, não era um truque treinado na frente de um espelho trincado, mas eu fiz parecer o trabalho de um mago profissional, um artista em dias inspirados.
Ela queria uma obra de arte, eu ofereci um museu inteiro com exposições diárias em todos os horários.
Os críticos me fotografaram lhe roubando confissões. Ela era parada obrigatória num trânsito sem placas. Ele queria a fama que não estava embaixo das luzes, o reconhecimento que não estava nas cifras, nem nas capas dos jornais, nem em tablóides sensacionalistas.

Para compreender nosso mundo era obrigatório chegar cedo e aproveitar cada segundo da festa de nossas vidas.
Ela sussurrava, ele fazia música. Você tinha um gosto inédito, tudo fazia parte de um sabor que não se repetia.
Os goles não embriagavam, mas enchiam todos os copos que eu pudesse segurar.
Os vizinhos diziam que a gente combinava, como um lançamento de qualquer estilista conceituada. Estávamos na moda.

O tempo não passa para quem é afortunado nos detalhes. Obsessivo para ser inesquecível em cada pequena coisa.
Ela não se contentava com um parágrafo, tampouco com linhas avulsas. Era um romance que deveria repousar sobre o seu travesseiro.
Eu colocava as palavras na academia para que voltassem poderosas e invencíveis. Elas caberiam nas paredes do seu coração e nenhum inverno seria capaz de congelar tanta devoção.

Ela tem aquele sorriso de quem traz boas notícias. O destino nunca seria capaz de ir contra uma fotografia sua.

Imagem: Ag Adibudojo

A REPÚBLICA FEDERATIVA DO AMOR

quinta-feira, fevereiro 09, 2012 12 Comments A+ a-



Acredito que a melhor maneira de se pedir desculpas completas, sem deixar rastros de mágoa ou ressentimento que possam ser farejados por qualquer outro desentendimento futuro, é apresentar os adjetivos que fazem o relacionamento dar certo e soar como exemplo para os casais superficiais que só dão as mãos em poses de fotografia.

Venho aqui, assinar meu nome com sangue (tipo O negativo), em qualquer documento que envolva o seu coração e os seus sentimentos.
Perdoe minha ausência de sensibilidade sazonal, eu não faço ideia da importância que o seu sorriso tem no meu sistema imunológico. Eu não sabia que a sua devoção era o alicerce da minha estrutura. Na verdade, eu sabia, mas é diferente quando você pega os melhores ingredientes do mundo, faz um bolo que inveja os chef's mais conceituados e joga na minha cara – com uma força tão abismal que faria o Hércules e o Sansão parecerem lutadores mirins de MMA.

Poderia apelar para o clássisco 'Eu te Amo' escrito em milhões de pétalas de rosas, jogados por um helicóptero alugado, arruinando as minhas finanças por 3 gerações. Mas eu sei que a sua beleza, altivez e inteligência não iriam se comover com nada que não tivesse o afeto e sinceridade como essência.

O que me deixa apaixonado é justamente o fato de você ser uma intrusa perfeita nos planos que nunca fiz. A peça de um quebra-cabeça que, aos olhos das outras pessoas está completo, mas pra mim, é o algo mais que distingue o ótimo do extraordinário.

Se Deus me confidenciou o sucesso de uma vida feliz, certamente esse caminho passa pela sua casa. E eu sei que, assim que entrei em sua sala, eu não poderia mais sobreviver sem estabelecer um lar que não tivesse a sua presença.
O seu amor é mais puro e cristalino que qualquer Centro de Abastecimento de Água. Eu quero tirar as minhas férias nas Termas do seu sobrenome. Até aprenderia a nadar para poder aproveitar as 567 estrelas do seu hotel.

Perdoe minha negligência, minha falta de zelo, minha distração natural.
Eu não sobreviveria tanto se não tivesse a sua fidelidade em meus braços. Eu preciso mais de você do que um paciente do SUS precisa de um plano de saúde.

Você é a minha ligação com a realidade. Você adapta os meus sonhos para o ambiente palpável. E faz isso com os melhores aromas do mundo.

Você é bonita por dentro, por fora, do lado direito, do lado esquerdo. Até a sua foto 3X4 pode ser enviada para o Concurso de Miss e certamente ganharia de muitas fotografias de outras meninas de corpo inteiro e maquiagem!

Não sou alheio aos seus incômodos. Suas dores me machucam diretamente e a minha reação é soar otimista e tentar lhe impulsionar para a felicidade, pois é isso que eu sinto desde o dia que conheci o seu nariz empinado.

Eu poderia despejar o meu máximo por você todos os dias. Desafiar os poetas desse e do outros século. Colocar o dedo na cara do Vinícius de Moraes, criar poesias mais impactantes que qualquer declaração de amor famosa, criar roteiros que assustariam os filmes mais premiados.
Isso não seria prepotência, nem arrogância. Isso é amor.
E talvez o amor esteja estereotipado errado, mas eu farei valer o seu verdadeiro significado.

Quero, outra vez, ser merecedor do seu amor. Com todos os meus defeitos que são remediados apenas por você existir.
Ninguém no mundo poderia me compreender melhor do que você. E se existir outra pessoa, eu prefiro ser preso por assassinato, pois é melhor que toda a sabedoria e encanto fiquem aos seus cuidados.

Logo, nada é mais vital do que a sua simples existência no mesmo ambiente que o meu.

Se existe uma lei em meu estatuto de relacionamentos cardiovasculares, ela está relacionada ao seu tipo sanguíneo, a cor da sua epiderme e as digitais dos seus dedos.
Ninguém pode lhe representar. Ninguém pode se passar por você.

Você é a única pra mim. A unidade feminina que conhece os motores do meu coração e o fazem funcionar com o dobro de energia.

Sou cidadão do seu país e morreria se fosse exilado.
Pois se o amor é a moeda da sua República, eu me endividarei de tanto capital que planejo depositar nesse solo.

Imagem: Dejan Krsmanovic

PROJETO JUNO

segunda-feira, janeiro 23, 2012 16 Comments A+ a-



Lutamos contra a gravidade que prega nossos pés no mesmo chão desde o início de tudo. Queremos refrões que nos façam entender o resto das músicas. Contra as sínteses, apenas os curiosos.
Voamos baixo por não sermos dignos das estrelas. Não temos a inocência para destituir deuses mas qualquer nação consegue construí-los baseados sobre o nada. E hajam coroas, hajam reverências, hajam representações circenses de respeito aos símbolos. Aos líderes da falácia e do discurso semi decorado.

O oxigênio só chega através de máscaras de ar. O tato substituído pela virtualidade – que não tem nada a ver com virtude.
Cantamos a moda sem cordas vocais. Sem tons originais. Vestimos a roupa dos outros, em números menores com marcas maiores. E somos assim, coveiros da própria identidade. Imitando os passos de quem mal sabe andar. Sonhando a realidade dos que perderam a capacidade de sonhar, pois já tem tudo. Naufragando em águas rasas pois não sabemos nadar em oceanos radioativos.

Quisera poder voltar no tempo apenas virando a ampulheta. Quisera o arrependimento salvar e fazer backup automático dos nossos atos.
Quisera o amor resistir aos poderosos exércitos de outros tantos sentimentos.

Entramos na órbita de outro planeta e fomos expulsos da Terra como Adão e Eva foram expulsos do paraíso. Desafinamos a mais simples melodia que tentamos tocar. As partituras não aceitam nossos dons obsoletos. A música só toca o silêncio.

Não basta técnica, não basta talento. A excelência pede alma. E onde está a sua?
Quando foi a última vez que você encheu mais os olhos do que os bolsos?

Quando lhe pediam a voz, você respondia com mensagens de texto.

Qual a vantagem de assistir de camarote, com todos os requintes do universo, a destruição do caráter? A ruína da atmosfera, em lágrimas falsas que não enchem um copo americano?

Se viver é sempre ter que provar alguma coisa, a vida não tem mérito. É caminhar com medalhas que consolam a consciência mas pesam nos ossos. É ostentar títulos que calam as pessoas mas ensurdecem os corações.

Será que os sobreviventes da nossa geração saberão medir o valor das coisas pela essência e não pela etiqueta?

Será que as pessoas saberão que o simples fato de fazer mais que o possível é uma maneira de se definir novos limites?
Mas o comodismo é um vício irresistível. A fórmula, o método, qualquer atalho é sempre mais atrativo que a transpiração necessária para se conseguir o novo.

Imagem: Xin Xin

A CONQUISTA PELA GENTILEZA

terça-feira, janeiro 17, 2012 7 Comments A+ a-



Gasta-se muito para manter os ouvidos das mulheres ocupados. Não o bastante, nunca o suficiente. A minha estimativa é que se trata de uma pequena fortuna.

É caro para qualquer cavalheiro plantar evidências de um amor convicto em todos os cantos da cama de uma mulher. Mas esses investimentos são necessários para que a confiança da sua escolhida não seja apenas uma caricatura de personalidade.

É um dom dissipar o passado usando apenas aquela simples técnica de beijo que você nem lembra como aprendeu.

Você faz elogios sinceros com o mesmo vigor de um campeão de halterofilismo, ou seja, a sua sensibilidade está com hipertrofia e ela não consegue tirar os olhos desse grupo muscular.

Ela transpira algum perfume francês tão violentamente delicioso que o seu nariz passou a rejeitar o oxigênio.

A inteligência pode ser um entretenimento divertido nesse parque de diversões. Poucas trazem esse brinquedo nas feiras de relacionamento, mas ela ousa oferecer essa combinação justamente pra você.

Antes eram apenas ruas estreitas para caminhar de mãos dadas, tudo milimetricamente previsível e de curta fascinação. Com ela, são avenidas intermináveis, iluminadas e convidativas. Lojas que vendem apenas o seu número, carros que tocam a sua música favorita em alto e bom som, o tempo todo.

O destino não se disfarça de tentações quando se acredita plenamente que a construção do comprometimento está alicerçada nas conquistas diárias. A admiração é um escudo contra as setas da novidade.

Existe uma ousadia nas letras de sua caligrafia. Ela se despe quando palavras e atitudes fazem par na mesma dança. Não são necessárias atmosferas cinematográficas para que a essência da devoção seja fabricada. Nada é ensaiado apesar da visceral harmonia.

Quando se é perfeccionista até no desnecessário, a excelência passa a ser a sedução favorita de quem ousar descansar os olhos em sua direção.

Ela está faminta por seu paladar e toda refeição só terá um suculento sabor se você colocar os temperos certos na receita da sua vida.

Imagem: Imren Tuzmen