ONDE ESTÁ A APOTEOSE?

quinta-feira, agosto 11, 2011 14 Comments A+ a-



Não é a insônia que inspira os escritores em potencial. Aqueles que buscam méritos por meio de algumas locuções adverbiais. Aqueles que falam difícil, conjugando com desconfiança, interpretando alguém que não se é por merecimento (e o que seria isso em nossos dias?), experimentando a falsa liberdade de ignorância.

Claro, é muito mais fácil se envolver com distâncias seguras, contando passos até o objetivo seguinte, cultivando a espera eloqüente da descoberta. O ponto de interesse adormece nos primeiros minutos em que educamos nosso olhar sobre outro ser humano. As histórias pouco importam. Verbalizar é abraçar o clichê. Suspirar? Uma mentira!

Quão heróica uma pequena demonstração de afeto pode se tornar. Hipocrisia em presentes. Em tempos. De tempos em tempos. A página que viramos é suspensa por cabos de aço. Quisera argumentar sobre a criação de uma história assim.

Faltam horas de maior comprometimento. Não leram a quantidade indicada de Millôr Fernandes, ficaram ali, na Clarice Lispector, nos colunistas que fazem dos seus leitores vitimas de seu cotidiano.
O que pode fazer alguém afortunado de pseudo cultura? O abastecimento da intelectualidade com diários? A síntese imposta pela quantidade de (des)informação?

Arquitetamos dimensões virtuais sob nomenclaturas reais sem estímulo corporal aparente. Donos de uma verdade que não paga aluguel. Falsos somos. Tolos. Oriundos de uma base inexistente. Deslumbrados com sentimentos alicerçados em ficção científica. Desafinados assim, na sinfonia de uma orquestra sem maestro.
‘O mundo tira de ouvido’ – eles dizem. ‘A felicidade é orgânica’ – ouço, as vezes.

Massacramos o caos que vivemos com mais caos. Subestimamos o equilíbrio.
Equilíbrio esse que é como a sorte: Uma balança imperfeita e mitológica. Precisa de tantas coincidências, tantos elementos funcionando numa harmonia absurda que, no final, não serve como medida.

Não se aplica nenhum método e isso é assustador nessa modernidade. Imprevisível. É horripilante! Temos essa fixação doentia de saber o que diabos irá acontecer.
O que os números dizem? Se essa informação não se transformar num dado passível de interpretação e posteriormente conteúdo de um relatório que baseará uma ação coordenada, torna-se inútil.

Nunca se trabalhou tanto com certezas. Nunca errar foi tão desumano e ridículo. Nunca a rotina foi tão excitante.

Você pode passar a vida dando tapas na cara das pessoas. Ninguém vai te oferecer a outra face. Ou elas se encolhem e procuram explicação para as agressões diárias, ou revidam sem entendem que tapas são injeções de realidade.

Ninguém melhora pela filantropia. Só se racionaliza com a frustração.
Esse é o problema do abraço. As pessoas confundem conforto com conformismo.

Imagem: Mica Ringo

A TOLERÂNCIA É POP

terça-feira, agosto 02, 2011 16 Comments A+ a-



O que existe aqui é uma interpretação. Uma cena. Um capítulo roteirizado com um mínimo de critério. Somos a geração do suficiente, do bastante. Idolatramos o razoável e colocamos a excelência como uma besta mitológica. Ostentamos nossas gargalhadas mais deliciosas para aqueles que buscam notoriedade pelo conhecimento.

Desviamos da auto-estrada do conceito. Somos pedestres da falsa segurança, ignoramos o volante da responsabilidade. Escrevemos com as letras da sociedade onde faltam vocábulos harmoniosos e sobram verbetes de calúnia.



Encher os olhos é encher o saco. Surpreender é assustar. Assassinar o comum é celebrar a própria culpa num julgamento formado apenas por promotores. A rotina é a medalha que todos recebem por serem os atletas do descomprometimento.



Confiar no equilíbrio dos nossos tempos é acreditar que existe esforço em dar passos numa escada rolante. O sol que você tapava com a peneira virou chuva e continua chegando sem proteção aos nossos olhos – e acredite, essas gotas não vão lavar a sua alma.



Ninguém pode reclamar um titulo de nobreza apenas por jogar flores no caixão do amor. Não se celebra a morte de quem está vivo.


Se você é agricultor e decide investir na cultura da decepção, não culpe o mundo se a safra for um sucesso. 



Imagem: Artem Khatakov