KRIPTONITA

segunda-feira, setembro 27, 2010 34 Comments A+ a-

A resposta da minha máquina de escrever tem alguns traços da sua caligrafia.
Minhas roupas parecem confortáveis desde que você decidiu costurá-las com suas mãos.
Eu deveria te esconder. Todos querem contratá-la, todos precisam de um pouco da sua respiração, todos sabem que a sua ampulheta carrega hoje a minha versão em pó.

O engraçado é que você não apareceu me apontando uma arma e exigindo todos os meus pertences emocionais. Não foi impetuosa, não foi a gangster mais encantadora do pós-modernismo cardiovascular.
Você simplesmente olhou o que desejava, andou diante da variedade e complexidade dos meus produtos e escolheu o que faria seus encantos virarem combustível.

Eu não coloquei um cartaz de ‘procura-se’ mas algo na sua recompensa valeria a idéia.
Meus bolsos nunca estiveram tão pesados. São moedas que só funcionam em seu banco. São ações da sua empresa que se valorizam todas as vezes que decido aplicar em alguns dos seus diversos modelos de beijo.

Você não poderia ser apenas um bloco de notas. Suas páginas sugerem uma enciclopédia. E até os mais incultos desejariam cair de cabeça nos seus conhecimentos.

Pra alguém que estava pagando as prestações de um amor, como eu, você aprovou um crédito que nunca imaginei que tivesse.




[O presidente desse blog agradece a todos os comentários, em oníssono. As próximas postagens serão nominais aos comentários mais criativos e próximos da idéia original do autor. Hoje, eu vou agradecer à MÃE de uma pessoa muito interessante. Ela já leu todos os textos do Teatro, ou seja, sabe perigosamente muita coisa sobre o Brunno Lopez. Fica aqui o meu abraço e agradecimento gratuitos e honrados à ela.]

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quinta-feira, setembro 16, 2010 30 Comments A+ a-

Ao abrir uma parte do seu presente, fiquei eufórico.
E isso dura pouco e muito. As emoções no seu mundo são tão intensas e aleatórias que preciso me concentrar o triplo
do normal para poder diagnosticar o que de fato está acontecendo.
Percebo que, de perto, dá pra ver a marca das suas armas. A munição em perfeito estado. Pronta pra atirar em tudo que se movimente.
Em tudo que lhe faça parar o olhar. Em poesia, em prosa, em sonâmbulos.

Meus passos são céticos. Mas você sabe o número dos meus sapatos.
Fiz um mural para os seus defeitos, escolhi meus favoritos.
No seu livro não existe ‘THE END’, logo, todos os capítulos são imperdíveis.
Você inventa palavras, ri escandalosamente. Não cativa pelo óbvio. E eu tenho um vício ancestral pelo incomum.
Gosto da cor da sua epiderme, de como o sol não consegue lhe tatuar.
Gosto do jeito que as roupas lhe vestem. Elas te escolhem. Imploram pelos seus dedos no cabide.
Não se veste pra matar. É o próprio assassinato, a ré confessa dos encantos nesses tempos tão previsíveis. É o inesperado que todos esperam.
O imprevisto que todos adorariam prever.
A tecla do piano que nunca deixa de ser tocada.
Sua pretensão ultrapassou os 20 minutos da minha inspiração. Não por falta de argumentos, mas pela naturalidade de informações
que são assustadoramente depositadas em minhas mãos quando decido me lembrar de alguma das suas feições.

Você desperta o ciúme antes do próprio amor.

Você não faz idéia de quantas vezes desafiei sua negação para o ringue.
E eu sei que você não se esquiva pra fugir. Você só espera pelo meu melhor golpe.
Mas o nocaute não combina com o seu tipo de luta.

Eu prefiro descobrir todos os dias meios para fazê-la beijar a lona do que decorar uma regra.
E isso não faz o menor sentido. Faz o MAIOR.

TRÊS PONTOS (...)

sexta-feira, setembro 10, 2010 24 Comments A+ a-

Vivia num tempo sem leis vigorantes.
Respirava numa época onde zepelins eram helicópteros.
Jurava que minha faca nunca perderia o corte. Costumava ferir instantaneamente e agora nem me lembro quantas vezes tenho tentado lhe tirar uma única gota de sangue.
Minha sabedoria tinha um arquivo inconsciente sobre você. Autenticado em duas vias, esperando pela rubrica dos seus lábios inteligentes.
Toda a burocracia que instalei aqui me agradava gratuitamente. Mas agora eu te vejo jogando papéis importantes ao vento. Todas as suas reticências me tiraram do fã-clube do ponto final.
Eu não sabia do tamanho da sua importância. Ou pelo menos, ignorava o fato.
Eu não imaginava que estar no vagão da sua montanha-russa fosse exatamente tudo o que precisava pra me sentir feliz. Escandalosamente feliz. Invejadamente feliz. Uma felicidade tão exagerada que poderia facilmente ser o oitavo pecado capital.

Eu lhe atiro flechas num olhar disfarçado.
As pegadas sumiram, meus passos não conhecem um caminho seguro na sua direção. Talvez porque sem riscos, não existam glória nem recompensa.
As páginas de frases feitas estão ilegíveis. Nada que conheço parece funcionar, nenhuma medalha oferece algum respeito ou sabedoria.
E na outrora de sentimentos desconhecidos, os meus soldados procuravam por algo parecido.
E quantos ao todo eu poderia comandar?
Teria a ilusão como guarda-costas, e ego como assassino e o amor ficaria à paisana... Afinal, é mais cômodo e menos perigoso.

Desse quebra-cabeça eu só ignoro a paciência. A infinita cautela.
Pra que apenas me molhar quando posso ser mais um habitante de Atlântida?

Não tão distante do seu copo de vinho favorito, eu acordo para lhe fazer dormir.
De todos os presentes que ganhei, o seu tem o laço mais bonito.
Eu tenho medo de abri-lo por completo e perder a ‘eterna surpresa’ que sinto por você.

Se eu precisasse de uma única gota sua, esperaria o dilúvio todo.

DESENCANTO GRATUITO

sexta-feira, setembro 03, 2010 29 Comments A+ a-

Todas as vezes que aceito sentar à sua mesa, eu não tenho fome.
Não me agrada a cor da sua xícara, eu preciso de muito açúcar pra gostar de café. Você sabe como temperar meu prato favorito mas perdeu os ingredientes mais saborosos.
Eu já contei as voltas que dei no seu cabelo, eu fotografei as suas pupilas implorando dilatação. E onde foi encanto?
Eu sempre quis gritar mas você me deixava rouco sem abrir a boca.
A interrogação sempre foi o meu ícone favorito. Oferecia como entrada, como sobremesa. As dúvidas que sempre planto em corações de pouca vida.
Eu ainda não soube recortar as lembranças e fazer uma carta do tipo ‘pedido de resgate’.
Meu conhecimento sempre se concentrou na embalagem, nas cores e no rótulo. Hoje é estranho estar obcecado pelo recheio.
Comum agora passar pelas fases sem apreciá-las. Comum agora correr sem fôlego apenas para que você me faça massagem cardíaca.
E eu nem mais te fantasio. Eu não vou cobrir meu rosto se você decidir ser o sol.
Em seu circo, eu sempre fui o único palhaço que não precisava de maquiagem. A minha graça estava em você.

Espero agora convencer o mundo de que perdi meu uniforme de herói. E que vilões também podem estar na moda.