A NUVEM QUE ERA DE ALGODÃO... ERA.

domingo, agosto 29, 2010 15 Comments A+ a-

O mundo pode lhe parecer enorme, mas eu vejo pouco nesse canto que acordei.
Não ouço mais ninguém dizendo que temos tempo, que é possível.
Aliás, o que se ouve nesses dias?

O verão veio frio dessa vez.
Eu sinto que meus braços não alcançam o mesmo limite.
Talvez por não existir nada valioso pra se tocar.

Usei o amor como moeda e hoje não consigo comprar nada com ele.
E não posso vendê-lo.

As vezes eu penso que só abri minha loja pra você entrar.
Expulso todos os clientes que não atendam por seu nome.

Mas você não trabalha mais aqui.
E todos os currículos que chegam se queimam antes de eu poder ler a primeira linha.

PÃO-DE-MEL

sábado, agosto 21, 2010 22 Comments A+ a-

Pão-de-Mel. Um brigadeiro embaixo daquela árvore depois de correr tanto.
É doce? É rapido e indiferente?
Chuva de uva, cores vivas, um beijo.
Te convido para um passeio de balão. O mundo segura passagens de avião.
Eu agora não grito pra lhe dizer a verdade. De verdade.
Eu quero desabotoar o seu medo e olhar de perto as suas marcas de vida.
Pão-de-mel. Quanto açúcar você colocou no meu café-da-manhã?
Te olho nos olhos por não ter coragem de olhar pra mais lugar nenhum.
É a sua visão ou as sombras da vida cotidiana?
Meu anjo da guarda mudou de time e me liga toda vez que eu perco.
É o senso de humor do meu vídeocassete, do meu dvd, das minhas tecnologias que por mais antigas que sejam, conseguem ler o seu arquivo.
Meu pendrive te vê como um vírus mas te aceita.
Te coloca na corrente sanguínea digital e evoluída de alguém que abandonou os castelos e mandou a coroa de príncipe pelos ares.
Comprei rosas e embrulhei no jornal. No caderno de economia.
Ironia? Eu não economizo palavras nem para salvar o próprio cotidiano.
Mas e então? Não temos grana pro jantar, mas eu morro de fome de você.
Fico ruborizado quando o sinal fecha e o vermelho lembra o batom que você NUNCA usou.
Músicas que deixei de ouvir pra saber se seu coração batia mesmo.
Você precisava do meu sobrenome, precisava da minha coleção de selos.
Queria aplausos, queria uma perfeição que nos escondesse dos outros.
Não é a bebida que me faz mal. É o seu copo.

ESTAÇÕES

segunda-feira, agosto 16, 2010 28 Comments A+ a-

Todos aqui estão absolutamente partidos.
Arrependido por voar ali, no ombro que você me comprou.
Amores jovens à nossa mesa, um guarda-chuva para sentimentos.
A poeira do tempo me ensinou a te esculpir. Me obrigou.
Tenho aquela interrogação de como ficou o meu presente. De como meus álbuns se debatem na sua gaveta.
De como minhas cartas lhe cobrem o corpo quando faz muito frio e nenhum cobertor é suficiente.
Todos aqui estão absolutamente partidos.
Claro que não precisei comprar sorrisos. Por azar ou sorte, eu nasci sendo o maquinista da montanha-russa,
o cavalo esquecido do carrossel.
É aquela piscina na sombra dos seus olhos. Não seria vago se não fosse potencialmente angustiante.
Todos aqui estão absolutamente partidos.
Mas não sou eu que sei colar, não sou eu que fixo, não sou eu que costuro, não sou eu que faço durar.
Eu posso até segurar uma rosa. O problema é que qualquer coisa nas minhas mãos vira uma arma mortal.
A minha segurança é uma armadilha. O meu abraço não é um convite de casamento.
O meu beijo não é uma viagem de primeira classe, mas sempre vai te levar além da compreensão dos astrônomos.
Não é tão alto, mas se você cair, vai se machucar mesmo.
Ao contrário dos conquistadores ambulantes, eu sangro com as suas cicatrizes.
Se alguém toca o seu cabelo, meu ar arruma as malas.
É assim que a felicidade me cobra. Não pela perfeição da existência, mas pelos meus gastos com amor-próprio.
Eu me libertei das grades que construí com os seus sonhos esquecidos.
A minha matéria-prima e o meu produto final (o que está nas prateleiras) é você.
Isso certamente não muda com as estações.

O VIOLINO DE 3 CORDAS

terça-feira, agosto 10, 2010 33 Comments A+ a-



Sempre que abandono meu lar, sou o único a andar por essas ruas.
Até estrelas mais corajosas já foram procurar outro lugar pra dormir.
Tinha me esquecido como era ouvir o silêncio sem sentir o cheiro da sua vida.

Justo você, que se cansou dos corações partidos e chamou a polícia?
Não existe crime perfeito quando o cupido é cego.
Eu estava contando suas lágrimas quando sua pizza chegou.
Vi quando os anjos disseram que não cantariam mais pra nós.

Tinha alguém com um violino de três cordas, dizendo que a quarta era pra você.
Te coloquei na primeira fila do meu show pra aceitar apenas as suas palmas.
Minhas mãos queriam o seu analgésico que nunca funcionava.

Você não piscava os olhos quando eu te dizia que era segunda-feira.
Não vendia suas armas mesmo sem saber atirar.
Não levantou vôo com as asas de madeira, mas me mostrou poucos segundos do céu.

Sobre heróis de mentira eu construí minha pior armadura.
Tentando ser o super-homem de alguém que ainda não conheci.
Lendo histórias que não aconteceram, ficando entre a bala e a arma.

Cheguei à terra prometida mas esse não pode ser o seu país.
Não foi aqui que enterrei a melhor parte do meu coração.
Não foi aqui que decorei suas iniciais desconhecidas.
Não foi aqui que deixei o ódio se vestir de açúcar e me oferecer um café.

Espero pelo ônibus de nossas vidas.
O amor que você escondeu na sua mochila, a bagagem que se perdeu no tempo.
Não é o meu destino adormecer com esse bilhete falso.
Eu mastiguei a felicidade no meu último café da manhã.

Como posso me sentir em casa se a sua existência é o meu lar?
O filme que assisto sem legendas, a pizza que sempre peço e nunca pago.

O que não daria para conhecer a sua vida, seus medos de criança.
Não preciso de velas, não quero ser romântico.
Vivo o seu inesperado, a sua previsão do tempo, o seu comercial no meio da final da Copa do Mundo.

Somos tão estranhos, não decorei esses números que você escreveu em minha mão direita.
Não te vi sair da festa quando a banda tocou sua música.
Meus pés não veneram o chão que você pisa mas queriam dançar contigo.

Imagem: Eric Rune

EXCLAMAÇÃO

quinta-feira, agosto 05, 2010 41 Comments A+ a-



Houveram noites assim, que pensei em não rasgar as suas melhores cartas.
Meu mundo ficou colorido quando o preto-e-branco virou moda.
Mas hoje, eu não preciso mais desse seu oxigênio hipnotizante. Talvez se eu andar perto da sua calçada eu decida estacionar pra sempre. Por isso prefiro o céu.
Sempre olho seus traços com cuidado cirúrgico e folheio suas páginas religiosamente.
Você pode ser uma oração que não aprendi por mais que tenha decorado.
Você sempre vai ser um ponto de exclamação em qualquer texto que eu escreva.
Não poderia vestir alguma de minhas armaduras contra isso. Você parece ter as chaves que nem mandei fazer. Por isso é tão injusto querer aproveitar essa chuva sozinho.
Nós sempre abandonamos o sol pra dar nome as gotas que caíam do nosso céu.
Eu e você desafiávamos os furacões e passávamos nossas férias em algum vulcão ativo.
Hoje talvez eu esteja fraco.
Fraco pra roubar o sonho de alguém.
As pessoas não sabem fechar os olhos para fazer agradável um pesadelo.
As pessoas simplesmente não sabem.
Eu sei.

Mas você não sabe mais encontrar um lugar no meu travesseiro.

Imagem: Matthieu Godon