LÁBIOS DE CARNAVAL

sábado, julho 31, 2010 36 Comments A+ a-



A maioria das músicas que cantei não eram sobre mudança.
Da minha maquiagem de palhaço, só o destino ria de mim e roubava minhas piadas.
Eu quis ser alguém diferente do que meu espelho profetizava e agora eu não encontro mais as configurações originais.

Eu visitei meus heróis num cemitério sem rosas brancas.
Olhei pela última vez a distância entre as minhas mãos e o céu da sua vida.
Não existe tatuagem que possa marcar mais do que a sua mordida matinal.

Não esqueci a maneira de como os lençóis te cobrem. De como qualquer esboço soa como arte final a quem te olha desarmado.
Eu nunca soube tocar guitarra, mas toda vez que seguro uma nas mãos, ela sangra.
É o cheiro do seu quarto, da sua respiração de jardim.

É a sua capacidade de colocar o dedo na minha segunda e me dizer pra viver como sábado.
Nada combina mais com os meus sapatos do que o seu mal humor.
Eu aprendi a ver que seu sorriso só aparecem quando a situação é mágica.
E eu só preciso da sua mágica pra sorrir involuntariamente.

Eu sei que me virei quando você gritou silenciosamente.
Eu sei que você escreveu cartas pra quem nunca soube ler as suas palavras.
Eu sei que você assassinou o nosso futuro com seus lábios de carnaval.

A maioria das músicas que cantei não eram sobre mudança.

Eram sobre você.

Imagem: Hans Engbers

SEM PENSAR DUAS VEZES

segunda-feira, julho 26, 2010 35 Comments A+ a-

É inenarrável dizer o quanto sou agradecido pelas pessoas que passam aqui sempre.
Mais ainda aquelas que deixam um pouco de si em algumas palavras.
Logo voltarei com mais textos.

Hoje eu decidi colocar um vídeo (bem simples) de uma das músicas que escrevi.
Uma ótima semana a todos e muito obrigado pela atenção e tempo dispensados!

A CURA

segunda-feira, julho 19, 2010 43 Comments A+ a-



Existiam linhas quebradas naquele roteiro.
Existiam nomes desconhecidos e falas precipitadas.

Desde os cinco primeiros segundos da minha (da sua?) vida, eu tive a plena e inenarrável convicção de que nunca poderia ser um 'mestre da interpretação'.
Eu descobri que não sobreviveria encenando monólogos inteligentes e perspicazes.
Tudo o que meus olhos fotografavam, eu não conseguia revelar.

Toda aquela atmosfera. Todas aquelas cores sintetizadas numa canção sem instrumentos.
As mentiras tem seu reinado limitado mas faziam o seu sangue correr pelas paredes das minhas mãos.

O mundo vislumbra centenas de milhares de rumos aleatórios, com paisagens infinitas e histórias bifurcadas. Mas nós...
Nós sempre desejamos a mesma coisa. Vocês desejam, eles desejam.

Se a sua corda for forte o bastante, todos vão querer saber se suportam seus pescoços.
Se sua cadeira balança com ruídos engraçados, todos vão adorar esticar suas pernas.
Se suas asas são de madeira, todos vão desejar entender como você levanta vôo quando elas se queimam.

Ficaria um milhão de anos calado mas eu respondo aos seus estímulos.
Seus pulmões resolvem respirar e movimentam as partículas de ar ao meu redor.
Seus olhos decidem abrir as cortinas e lá está meu mundo sendo colorido de novo.

Na sua TV, o canal dos 'corações partidos' saiu do ar por falta de patrocinadores. E você morre em suspiros, acreditando que qualquer truque de algum mágico fajuto trará suas aspirações novamente. Pois creia.
Faça dos livros uma escada de conhecimento e se cure.

Cura.
Se o amor é sua doença, o que a cura lhe oferece?

Imagem: Aurelijus

O CAÇADOR DESLEAL

segunda-feira, julho 12, 2010 38 Comments A+ a-



Não foram os anos que aceleraram.
Não foram os números errados que você discou.
Não foram as sombras falsas que deixavam o sol passar.
Não foram os portões enferrujados de um coração qualquer.

Por maior que seja o som da minha voz desafinada, não tenho ouvidos pra direcionar.
Não creio que tenha algo substancialmente relevante pra entreter alguém.
Não acho que meus braços tenham o tamanho da sua casa.
Nem pensei em construir uma ponte sobre o muro das nossas vidas.

Eu nunca fui um caçador desleal, nunca soube apontar uma arma sem me ferir mais que a presa.
Não consegui me congelar para chorar cristais e enfeitar a melhor parte do seu pescoço.
Não soube enganar a noite pra fingir te presentear com as primeiras horas do dia.

Alguém deveria roubar a honestidade de mim.
Alguém deveria me arrancar essas páginas amareladas, o meu dom condenado aos quartos empoeirados.
Alguém que provavelmente atende pelo seu nome.
Alguém que dorme numa cama igual a sua, com os mesmos quadros abstratos.

Eu não decorei o caminho de volta para os meus melhores dias. Nem sei se os vivi de verdade.
Talvez tenha mudado de faixa na melhor música do disco.
Não tenho mais o benefício da dúvida nem a certeza do provável.

Pensei que memorizaria antigos traços e melhoraria meu futuro desenhando por você.
Eu nunca precisei de rascunho pra dizer a verdade.
Eu nunca soube o que falar, mas o que balbuciava fazia um pedaço da sua alma não se esquecer do meu abraço.

Daqui eu aprecio todas as gotas da sua chuva que nunca passou.
Nunca existiam raios amarelos, o sol tinha medo de você.
Acordava só quando você estava num sono alto, com sua expressão malvada e impaciente.

Eu poderia culpar a sua existência, por ameaçar minhas desventuras.
Por jogar seus cabelos numa pista de dança e fazer sua música tocar mais alto.

Eu sei que, se a morte fosse um bem, eu seria o seu assassino.

Imagem: Lukás Zlatkovsky

O SOL DA MEIA NOITE

quarta-feira, julho 07, 2010 26 Comments A+ a-


Eu diariamente revisito os fantoches sentimentais dessas silhuetas atuais.

Não sou discípulo das estações, mas cita-las fazem simples palavras galgarem montanhas dignas de um complexo soneto.

Qualquer ambiente consegue sussurrar os segredos à minha pessoa.
Eu procuro não ouvir discretamente.

As fantasias são insípidas, mas ocasionalmente reais.
Ninguém aqui decora os textos por completo, nem improvisa.
Os botões desse controle remoto não funcionam ao seu simples toque.

Não existem emoções incontidas nem mentiras fabricadas.

Os meus passos não marcam seu jardim pois eu flutuo.


De todas as cores eu pintei esse céu. Você não faz idéia do cenário que me inspira em porcentagens cautelosas.
O que meus feitiços conquistam eu vendo. E meu preço será eternamente caro para as suas economias.
Eu não rabisco páginas procurando sintonias perfeitas e concordâncias razoáveis.
Eu faço das bordas do alvo a pontuação mais alta e reino com altivez em meu próprio domínio.

Não enxugo lágrimas de olhos vazios. Não consumo letras vagas para adentrar em ambientes de pouco fascínio.
Não vou me trajar de serpente para rastejar nas suas dependências.

Eu rio com pena.
Forte e fraco o bastante para toda e qualquer coisa.
O equilíbrio não existe, não perca seu tempo pesando suas virtudes na minha balança.

Amassei incontáveis papéis e aprendi que escrever ao vento faz com que minhas idéias alcancem todos os limites.


Ninguém ainda tem poder o bastante para ser suficientemente original em uma escolha paticular.
Ninguém salta de um prédio esperando ser salvo.
Ninguém.


Esses amores baratos expostos aos montes em lojas de conveniência.
Substituindo as balas num troco de pouco valor.

Tropeço em romances finitos, com cores fortes mas perfumes impuros.
Nem tudo o que agrada as vistas merece estar num quadro de aquarela.
O que a alma nos desenha o coração reduz a rabisco.
Ele destrói toda a arquitetura maquiada para apaixonar-se pelas linhas tortas do projeto.

Hoje nem toda essa teoria funciona a plenos pulmões.

É melhor se cortar nos vidros estilhaçados das paixões traiçoeiras do que esperar noites quentes olhando a vida passar por alguma janela de madeira.


O ÚLTIMO

quinta-feira, julho 01, 2010 23 Comments A+ a-



Meus brinquedos.
Eu perdi todas as suas peças.
Meus cabelos não sabem mais como se moldar ao vento.
E as nuvens não são tão doces assim.

O que foi que aprendemos com o final de todos os capítulos?
Muitos pularam páginas, outros rasgaram...
Eu apenas dobrei para ler mais tarde.

Então essa é a sensação de ser a última pessoa do mundo?
A última carta, o último pedaço, a última dança.

Eu me petrifiquei nesse último verão e não pude ver você desfilar na minha órbita.
Eu acordei numa dessas manhãs chuvosas e não servia mais nas minhas roupas.
Eu dei dois passos e me pareceu ter percorrido uma maratona, um infinito exagerado.

Os nós que aprendi a dar não foram fortes para prender você.
Eu te escondi naquele envelope de ouro mas meu beijo não te selou.

Não posso mais roubar os sonhos das outras pessoas.
Não posso mais inventar meus próprios sonhos.

Eu me afoguei nessa garrafa ao mar e não tenho nada escrito em mim.
E mesmo que tivesse, não existe mais ninguém pra ler.

Nunca a grama verde e o orvalho matinal me pareceram tão assustadores.
Nunca o chão me pareceu tão alto.
Nunca o céu me pareceu tão próximo.

Essas lágrimas não têm mais sal... mas continuam a escorrer até a minha boca.

Imagem: Michael Homola