EU, EM TERCEIRA PESSOA

segunda-feira, junho 28, 2010 23 Comments A+ a-



Ele não era complexo em demasia.
Um diamante lhe seria encantador, mas o ouro já valeria a pena.
O céu nunca foi o limite, apenas um trampolim para vôos mais arriscados.

E daí que seus olhos não sabiam ficar em silêncio?
Sempre o antecipavam. Sempre o levavam para a última página do seu livro misterioso.
E mesmo com eles fechados, seus gestos não sabiam esconder o que seu antigo órgão cardiovascular desejava.

Era um estudioso, um amante das lágrimas salgadas que o amor lhe fazia saborear sempre que respirava.
Já habitou castelos sem ser convidado, replantou rosas arrancadas, assassinou seus melhores
sentimentos para a felicidade de qualquer outro ser humano.

Parece que por mais que as datas não se repitam, ele continua andando na mesma
velocidade que os sonhos levam para nascer e morrer.
Como dizem... ‘Do berço à sepultura’.

Era estranho como seu andar não deixava marcas iminentes em qualquer terreno.
As suas pegadas sempre foram emocionais. Ninguém poderia simplesmente desejar enxergar seus passos.
Era preciso alguma sabedoria, algum valor incrivelmente peculiar que prendesse seu olhar por mais de 5 segundos.

Ele descobriu que as noites não falavam sua língua.
Ele sabia que as primeiras horas de um domingo qualquer eram a melhor maneira de experimentar o seu ápice.

Das mãos que segurou, nunca duvidou da verdade.

Preferia a chuva.
Afinal, o sol queima as vampiras, e ele poderia amá-las um dia desses.

Sempre enxergava detalhes ocultos e os guardava para si.
Derrubava dos bolsos elogios intermináveis que as vezes o envergonhavam.
Sinceros demais?
Precisos demais?

Não. Apenas adequados e milimetricamente escolhidos.

Nem sempre nas horas corretas. Era comum unir o encanto com o desastre.
Ele sabia que a capa lhe dava o ar de herói, mas tinha plena convicção de que precisava ser salvo.
De si mesmo, das falsas histórias, dos lençóis com perfume demais.

A vida toda, tinha a própria imagem de companheira ideal.
Ou pelo menos, gostava de pensar assim.

Era tudo doce e lento demais. Talvez isso não fizesse seu coração entrar em forma.
Nunca estaria pronto para uma verdadeira tempestade, quando acontecesse.
Ele gostava de olhar a cor da vodka nos copos baratos.
Lhe interessava.
Mais do que qualquer outra coisa.

Nenhuma silhueta feminina o fazia desviar, nem ao menos parar seu raciocínio.

‘Quantas histórias dentro de uma mesma música’, ele pensava.
E guardou sua gaveta de amores exterminados.
Ele não sabia como escondê-la de si mesmo.
Talvez por medo de não saber rir de como era idiota.
Medo de não saber mais interpretar os papéis que lhe eram indicados pela vida.

Ninguém parou pra pensar que nas nossas vidas a maioria dos dias são rigorosamente iguais e
sem surpresas maiores que festas surpresas?

Não. Ninguém. E nem ele.

Ele sabia que o amor não passava de um tapete mágico que sobrevoava as misérias humanas.

DIÁLOGOS DECORADOS

terça-feira, junho 22, 2010 25 Comments A+ a-



Vou emoldurar todas as suas fotos produzidas.
Decidi amarrar teu corpo nas arestas do amor e te arremessar dentro do meu barco de papel.
Descobri que entre meus cobertores existe espaço para o seu tipo de confusão.
Penso que sua peça não pode ser encenada com diálogos decorados.
Nenhuma atriz conceituada saberia representar tuas infinitas feições diabólicas e apaixonantes.

Vou cantar músicas que ainda não te fiz.
Decidi prender a sua liberdade no meu pulmão sadio.
Descobri que entre meus cabelos seus dedos conseguem correr sem medo.

Penso que seu livro não pode ter um final clichê.
Nenhum escritor entenderia que não existem páginas suficientes para seu personagem.
E existe tantos 'eu te amo' dentro de cada letrinha que digito que quase posso ouví-las.

Algumas das vezes em que sua voz não saiu, eu estava com ela.
Eu segurei em alguma parte do seu vestido que não era possível se soltar.
Você foi obrigada a dançar comigo e a banda errou todas as músicas.

Eu pensava que uma noite me salvaria mas você nunca enxergou minhas asas.
Anjos te entediavam e hoje meus pés deixam rastros no chão do nosso quarto.
Meus pesadelos ganharam o açúcar que você deixa escorrer pelos teus dedos.

Minhas roupas ficaram desconfortáveis ou é só o seu abraço que passou a se vestir melhor em mim?
Seus poderes conseguem fazer um feriado com a minha pior parte.
Talvez porque a melhor parte esteja em seu poder desde o dia que reconheci o número da sua casa.

Imagem: Lucy Ottoki

A MENTIRA DE VERDADE

sexta-feira, junho 18, 2010 21 Comments A+ a-



Como começar um livro de um capítulo aleatório?

Eu não sei o seu nome, mas sei suas músicas favoritas e o nome do seu cachorro.
Eu não sei como prefere seu café, mas sei que nos domingos de manhã você não gosta de ouvir bom dia.
Eu não sei o toque do seu celular, mas sei que adoro quando você cheira as pontas dos seus cabelos.
Eu não sei onde você mora, mas sei que massagens nos pés te acalmam de maneira deliciosa.
Eu não sei qual o seu perfume, mas sei que perto do seu pescoço até os mais doces anjos desejam ser humanos.
Eu não sei o formato das suas mãos, mas sei quando as seguro, o outono ganha flores.

Você deve ser o último trem da estação. Aquele que quase ninguém consegue esperar.

Imagem: Darin Wissbaum

IMUTÁVEL

quarta-feira, junho 16, 2010 11 Comments A+ a-



O meu presente divino, que curou minhas cicatrizes, me ensinou a ver as horas, reconstruiu as minhas asas, amarrou meus sapatos e me fez acreditar que cada segundo tem seu valor peculiar, continua a respirar meus ares estranhos. 
Se existisse um número exato do infinito, eu passaria a eternidade escrevendo em seu nome. E não chegaria perto do seu total valor e beleza.

Por anos, as cartas de amor eram pra você.
Eu não podia desenhar seu rosto e outros olhos as leram. Mas, de uma forma inexplicável, todas aquelas palavras só tinham o seu destino. Nenhuma figura de linguagem lhe pode ser atribuída.
O que hoje nos honra e nos faz respirar o mesmo ar?
A enciclopédia das definições não tem esse verbete. E isso também não poderia ser escrito. Uma reprodução sua para as civilizações futuras não existiria.
Não existem palavras suficientes, nem imagens, nem sons, nem nada.
E naquelas madrugadas em que procurei bater o recorde de lágrimas derrubadas, eu reguei involuntariamente o seu jardim.
Enquanto eu assassinava as donzelas fraudulentas, sua silhueta ia pintando o quadro da minha vida.
Mas isso não se percebe. O coração continua batendo, os sinos dobram, as nuvens dissipam. 
O vencedor que adormece dentro de mim parece ter um sono pesado demais. Será que está respirando? Será que está vivo? Será que está lá?
Essas interrogações são tão sinceras.
E ninguém além de mim deveria fazer idéia das respostas. 

Eu tenho um anjo ao meu lado. Um anjo personificado. Um anjo que sabe me amar quando preciso e me ferir quando mereço. 
Eu teria que pavimentar a estrada por onde ele passa. Não se trata de adoração, nem de gratidão. O amor não pode ser grato. O amor não pode ter pena. O amor não pode ser fabricado. O amor não pode ser fantasiado. 
Do que se trata então? Eu não sei. 

Tudo o que é indescritível merece respeito. 

E a aurora que envolve minha alma é sua.

Imagem: Jeronimo Contreras

O SORRISO AO CONTRÁRIO

terça-feira, junho 08, 2010 14 Comments A+ a-



A todos vocês que se despediram de mim, que não mais se escondem embaixo do meu guarda-chuva. Ele deve ter perdido a graça, assim como o dono dele.
Nenhum fantasma do passado tem força suficiente pra mudar os atuais sentimentos.
Não é preciso uma balada melosamente romântica pra me fazer escrever abaixo da calçada.

Com melancolia iminente eu crio esse capuz existencial que infelizmente só serve pra mim.
A minha temperatura condiz com a necessidade do seu aquecedor?
Você sente o prazer de todo o meu gelo, das gotas congelantes, das brisas arrepiantes?

Eu sou o único em preto-e-branco nesse horizonte colorido.
É comum aos desesperados desafiar o rumo natural das coisas.
Beber toda a água da cachoeira, nadar contra ela... Tingir o céu de qualquer outra cor que não seja o azul das manhãs ou o preto das noites.

Eu estudei tanto pra ser seu anjo da guarda. Eu esqueci da minha própria vida. Eu passei apenas a estar onde sua respiração precisasse de ar.
Não seria difícil encontrar beleza em flores murchas, sedentas por uma faísca de sol.
Eu encontrava dádivas em tudo, eu escutava apenas os sons agradáveis, eu não enxergava a penumbra.
Nesse vale opaco, apenas minhas notas sucumbem.
Eu tenho todos os dados mas o mundo joga roleta.
Eu tenho todas as cartas mas sou o pino do boliche.
Queria saber o porquê dos meus traços estarem incompletos na ilustração de nossas vidas.

Eu não sobrevivo sem seu pólen, sem seu zunido familiar, sem qualquer coisa doce que você venha a produzir.
Não escolhi os cantos para me sentar mas toda sala parece grande demais sem a sua silhueta.
O amor não nos ensina nada. Apenas nos cobra e nos força a eternamente enaltece-lo em seu estado de paixão, onde todas as portas se abrem facilmente.
É involuntário pra mim defender sua existência. Quase sempre desperto de um devaneio qualquer levantando a sua bandeira. Seus degraus são como manuais de instrução que decorei por completo, mas não os abandono com medo de esquecer todas os seus desejos favoritos.

Bom seria se a tristeza fosse apenas um sorriso ao contrário.

Imagem: Andrew Berezovski