BOM HUMOR DE PRIMEIRA NÃO COMEÇA NA SEGUNDA

É engraçado como tudo fica mais leve a medida que a semana anda.
Até os mal-humorados por profissão - inclusive com perfis no Linkedin - conseguem esboçar um daqueles sorrisos amarelos parecidos com os lápis da Faber Castell que vinham em diferentes tonalidades para a mesma cor.

Provavelmente Júlio César instituiu opções default de humor enquanto criava o calendário romano. O sujeito iniciava a segunda-feira num compilado estimulante que ia de "Everybody Hurts" até "Goodbye Cruel World", em repeat ameaçador, enquanto folheava de três em três horas os instigantes escritos de Caio Fernando Abreu.

O mesmo acontecia na terça com agravantes potenciais de títulos em audiovisual. Antes de limpar o sangue dos gladiadores no Coliseu, o indivíduo entrava em contato com episódios melancolicamente transformadores de Party Of Five e Grey's Anatomy.

Mas hoje, assim que o sol se poe não quarta, um medley de "Summer Romance (Anti-Gravity Love Song)" e "Dancing In The Moonlight" começa a fervilhar pelas veias até explodir no alarme de um smartphone qualquer numa despretensiosa manhã de quinta-feira.
É impossível duvidar do otimismo de alguém que acorda com esse mix de fogos de artifícios de Incubus e Thin Lizzy.

Então, antes de martirizar os primeiros dias depois do domingo, pense numa esfera maior de entretenimento.
Afinal, o ano nada mais é do que uma grande semana e dezembro é uma gigante sexta-feira. Imagem: Mira Coure

QUEM VIVE DE PASSADO É PRESENTE

Existe um lugar secreto na História, onde uma versão melhor de nós mesmos vive e não há nada que possamos fazer além de lamentar a pobreza monetária e intelectual responsável pela falta de uma máquina do tempo em nossas garagens.

É curiosa a maneira que olhamos pra trás distraídos e nos deparamos com significativas emoções positivas não aproveitadas corretamente na época. Perdemos sensações apenas por estarmos preocupados demais vivendo e não criando gráficos para analisar o nível das experiências compartilhadas.

E quando passa, a gente passa vontade. Quer de novo, novamente, outra vez, again and again. Uma falácia contra o presente e um desprezo ao futuro.
O que é bom nunca "é bom". Mas quando se transforma em "foi bom", é ótimo. Justamente pela curiosa natureza humana de reverenciar o que não pode ser revivido em dias atuais.
Virou um quadro com visitação nostálgica. Um clássico particular, uma cultura personalizada que, mesmo só fazendo sentido pra nós, é rigorosamente tocante.

Mas o sucesso é efêmero. E logo menos estaremos brindando o que acabou de passar. Imagem: Lara Zanarini


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PASTÉIS DE VENTO



Das poses da vida, sempre procurava a melhor luz.
Conhecia horários como as próprias tatuagens, era fina em seus pequenos desejos. Nada deveras exagerado, apenas o básico para quem não aceita que o coração bombeie sangue para sonhos impossíveis. Só o que se podia tocar, só o que a respiração aguentava, uma espécie de nobreza que todo realismo adoraria ser vestido.

Limites respeitados, linhas nunca cruzadas, fronteiras intimidadoras. Não pelo receio do desafio, mas pela beleza engraçada do conformismo. De agradecer pelo que se tem e não ansiar pela incerteza do que não cabe na caixinha de esperanças.
Então nunca esperava. Vivia verbos no presente, sem qualquer enfeite no embrulho do cotidiano.

Nenhum acaso registrado, nenhum ineditismo inspirando expectativas. Apenas a existência livre e linear.
Ser inotável permitia captar a distração apaixonante das pessoas. Todo o embaraçamento natural e reações desastradas desenhavam rugas de felicidade atrás de suas lentes.

Deixou mudos quem ousou falar. Deixou falantes quem não sabia o que dizer.
E sua gagueira proposital era uma maneira de prolongar os poucos momentos que tinha de conversa.

Defendia a beleza exterior acima de tudo, e além de suas câmeras e fotografias, carregava consigo uma interrogação capciosa. Todos que conseguiam sua admiração e confiança, levavam junto com seu tímido sorriso, uma pergunta:

- Se a beleza interior não importa, por que o mundo odeia pastéis de vento?


Imagem: Unsplash

O TATO É O SENTIDO



A
os olhares inebriantes, que enfadonham os menos preparados, desejamos um pequeno brinde. Erguendo taças ao alto, celebrando toda a existência que nos transforma aos poucos. O inefável é sempre uma surpresa no superestimado mundo comum, e há quem apenas busque o limite máximo do extraordinário. Isso está além do final do arco-íris e do mês. Sem dinheiro em conta ou potes de ouro. É a magia de não saber do que se trata, o estimulante desconhecido que rejeita a intimidade para se gabar eternamente de sempre estar surpreendendo. Só assim para o gerúndio não ser criminalizado.

Os bolsos furados não enriquecem ninguém mas garantem que não se guarde mais do que se possa carregar. De mãos vazias e coração cheio; essa é a economia que não se pratica no capitalismo emocional, mas que rende em longo prazo. Entretanto, quem consegue assassinar o imediatismo? Nessa necessidade de fazer história breve e ficar apenas marcado na memória curta, os incautos perdem a chance de serem lembrados pela última geração que cultivou a sabedoria em detrimento à reverência ao irresistível supérfluo.

Pelas veredas da liberdade moderna, onde poucos são aqueles que conseguem educar os ouvidos para escutar mais respirações e menos sinais de bateria fraca, nem tudo é um completo desperdício. Existem conexões analógicas esperando por um login orgânico, o contato que não se digita num teclado mas faz um uso muito mais interessante dos dedos.

A modernidade substituiu o tato. Mas nenhuma criatividade contemporânea suprirá a linguagem da proximidade, a troca de temperaturas, o diálogo silencioso entre derme e epiderme, a fricção e o arrepio.

Quem não tem tato, vive escravo dos outros quatro sentidos.

Não é a toa que a pele é o maior órgão do corpo.

Imagem: Romanlily

FELIZES DECEPÇÕES



A sorte nunca bajula os preguiçosos. Felizmente ninguém precisou contar com ela pois não houve uma única vez que o relógio tocou antes das 10 horas da manhã.
Se não era possível virar a mesa, sempre se pode virar para o outro lado e dormir mais alguns daqueles cinco minutos que duram o dia todo. 

Eu vejo que estamos num final de sonho, onde de olhos fechados tudo quase parece dar certo. Antes dos compromissos nos acordarem, ainda sonolentos, é aqui que o futuro não nos assombra. Quando temos a proteção dos lençóis - a fortaleza de cetim capaz de bloquear o mundo sem graça - somos praticamente invencíveis. 

Revisitamos desejos por puro capricho, afinal, sabemos de cor o que nunca poderemos ser. Assim se sonha com o travesseiro macio e a consciência pesada por entender que o que é impossível é mesmo impossível. E que a superação é uma sopa de letrinhas incapaz de formar uma palavra completa. Um biscoito sem recheio que esfarela pelo sofá. Assim como tudo o que apenas imaginamos funcionar um dia. 

Se todos realizassem seus próprios sonhos, o mundo seria um pesadelo. Um caos de pasmaceira. Uma tragédia para roteiristas.
A verdade é que o anseio de um significa o fracasso retumbante do outro.
O que alimenta um sucesso repentino é a catástrofe do terceiro.
Saiba que se você sorri está se alimentando da mais sincera decepção de alguém. A cada dente mostrado, e a cada ruga de expressão criada por duvidosa felicidade, lágrimas estão temperando o jantar da pessoa do outro lado.

Esse é o balanço das emoções humanas, ligadas por um estranho véu de reações.

Talvez isso desarme a gratidão. Mas dizem que o planeta fica melhor sem armas.


TODO CAOS É IRRESISTÍVEL



Os furacões que se formam dentro da sua boca antes de cada sílaba pronunciada nunca foram detectados por nenhum serviço de proteção às tempestades. Combina com minha predileção pelo mau tempo, fazendo gotas de chuva disfarçarem lágrimas de felicidade quando capturo algum sorriso seu ao contrário.

Batendo de frente com sua frente fria, quase não sinto falta do telhado que foi arrancado por um dos seus ventos tropicais. Enquanto uns colecionam raios de sol matinais, eu me contento com pontos de alagamento.

A temperatura cai, suas roupas também. Com a luz apagada, você relampeja.
Se ouvisse meus trovões, saberia que estamos na mesma estação e poderíamos abrir mais corações do que guarda-chuvas.

Por mais que seus passos sejam terremotos de 9,5 graus na escala Lover, nada é mais poderoso que os tremores da sua cintura. Um abalo sísmico no mais calcificado dos ossos e no mais seguro dos caráteres.

De todas as maravilhas do mundo, eu escolhi o seu desastre natural.


Imagem: Betina Dupont

EXTRA! EXTRA! CONJUGAL

De mãos dadas, um alvo se move. Dentro da relação, alguém voluntariamente se desconstrói na iminência de ser montado, peça por peça, por outra pessoa.
O amor não é escudo quando a arma é o sexo. Então, ou você se rende ou morre.

Desconhecidos entram com novas trilhas sonoras. Você tenta tirar um fone de ouvido mas a música está no quarto todo. Ninguém pede trégua quando o arrepio é no pescoço.

As peças não se encaixam logo de cara, mas a novidade costuma lubrificar o suficiente pra que pareçam de fábrica. Agora tudo entra e sai - ainda que ninguém acorde no outro dia pra dar bom dia. Só pra dar a segunda.

Porta-retratos de cabeça pra baixo, assim como você numa posição diferente. A mensagem chega e ela está com as mãos ocupadas. O telefone toca mas a boca pode tudo, menos falar. A aliança escapa do dedo quando o outro puxa o cabelo pra olhar dentro dos olhos enquanto faz história com seus quadris.

O mundo culpa o irresistível, você culpa o tempo que perderam com distrações. As preocupações ficam do lado de fora quando ele está dentro de você. E você sai. Do controle.
Nada poderia ser mais alto que o céu daquela boca.

O que atrai, trai.
De olhos cheios, todos julgam.
De olhos fechados, todos extasiam.

Em público, estão acompanhados demais para cruzarem olhares e descruzarem os braços.
Alguém só quer o segredo do outro mas sem os protocolos de relacionamento.
E você não apenas se entrega. Você se coloca numa correspondência e o outro te abre, te lê letrinha por letrinha até decorar todas as suas extensões.

Não importa o quanto o seu compromisso se importe.
Alguém se exporta e acaba te desabotoando inteira. Imagem:
Cristian Negroni